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Saturday, 5 November 2011

O Caráter Sagrado do Culto

O que motiva alguns evangélicos hoje à distinção e identificação como “reformados”, não no sentido denominacional propriamente, mas no sentido histórico e teológico da palavra? Não é principalmente a insatisfação com o modelo de culto, segundo a arte, imaginação e desejos humanos que já está amplamente estabelecido também no evangelicalismo contemporâneo, “um filho rebelde” da Reforma Protestante ocorrida na Igreja no Século XVI? Esta tendência dominante no culto vem enfraquecendo a igreja doutrinariamente, e também conduzindo a uma atitude de negligência para com a disciplina eclesiástica. Não é também a confiança na Escritura Sagrada como a infalível Palavra de Deus, que nos impele para uma vida particular, familar e eclesiástica que reflita a autoridade da Palavra de Deus na obediência ou no arrependimento dos nossos pecados? Sim, somente motivos como estes podem nos impelir à escolha do “caminho mais estreito” da reforma, ao invés do “caminho mais largo da conformação”.

Entendemos que o culto é central na vida do povo de Deus. Não foi sem propósito que Deus ao ordenar a construção de um tabernáculo móvel, que seria o sinal visível de sua presença invisível entre o povo de Israel (Êxodo 25.8), ordenou que ele fosse colocado exatamente no meio, entre as tendas da famílias e tribos da nação. Era ali, na “tenda de Deus”, quem condescendeu em andar com seu povo peregrino, que as famílias de Israel, deixando suas próprias tendas, vinham encontra-se com seu Deus, o qual lhes falava, mediante o profeta Moisés, e os ouvia mediante o sacerdote Arão. Entretanto, absolutamente imprescindível, para que Deus continuasse habitando no meio de Israel, era necessário que Israel cultuasse a Deus, trazendo ao altar em frente à “tenda de Deus”, as primícias do rebanho para serem sacrificadas, tendo o seu sangue ali derramado, numa pungente figura do único “cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” – Jesus Cristo (Jo 1.29).

Todo acampamento de Israel era sagrado, porque era o povo de Deus, mas a tenda no meio do acampamento era mais sagrada, porque era o “tabernáculo de Deus”. O culto ali prestado, deveria seguir as prescrições dadas por Deus, por meio de Moisés. Nada poderia ser omitido e nada acrescentado. Uma deliberação, não ordenada por Deus, resultou na morte imediata dos dois primeiros filhos de Arão ordenados ao sacerdócio, para impressionar Israel com a santidade lugar do encontro de Deus com o seu povo, o Culto (Lv 10). 

O tabernáculo era sagrado, não por haver recebido qualquer emanação divina em sua estrutura, cobertura ou utensilhos, mas simplemente por seu propósito: ser um sinal visível da invisível real presença de Deus, e consequentemente ser o “local” do encontro de Deus com o seu povo. O tabernáculo era sagrado e tão rigorosamente protegido contra as invenções humanas porque era o lugar onde Deus falava com seu povo pelo profeta, e ouvia as orações do seu povo através do sacerdote, onde Deus mostrava, não somente para Moisés, mas a todo o povo de Israel a glória da sua bondade em misericórdia, e Israel em gratidão oferecia-se a Deus.

O Culto no tabernáculo era complexo porque era tipológico e didático, o culto no novo testamento é simples porque é a realidade tipificada no tabernáculo (João 4.19-24). A complexidade do culto vetero-testamentário pode ser vista na forma como o tabernáculo foi construído e mobiliado, nas várias e minuciosas regras do culto, na centralidade e paramentos sacerdotais.  O culto neo-testamentário é muito simples: Deus fala na leitura e pregação de sua Palavra e a igreja corresponde nas orações, cânticos, sacramentos (batismo e santa ceia) e ofertas (At 2.42-47). O culto neo-testamentário não precisa de um lugar especial com aparência de templo, não precisa de roupas especiais (mas devem ser “modestas e descentes”).

É por isto que o culto precisa ser protegido contra todas as invenções humanas que podem até ser inspiradas por Satanás; porque é no culto que Deus se encontra com seu povo para lhe falar e ouvir. As invenções adicionadas ao culto cristão, durante a Idade Média, tornaram oportuna e necessária a Reforma do Século XVI. As invenções de hoje também já têm clamado ou por uma profunda reforma.

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