Sola Scriptura, Sola Gratia, Sola Fide, Solus Christus, Soli Deo Gloria

Friday, 31 October 2014

Edificando Igrejas ou Construindo Torres de Babel?

O que nós cristãos estamos fazendo hoje: edificando igrejas ou construindo torres de Babel? Antes de responder à pergunta convém relembrar o conhecido o relato bíblico que se refere a um importante acontecimento na História da Redenção, que se deu algum tempo depois do Dilúvio.

O Dilúvio foi o mais universal juízo de Deus sobre a humanide, já ocorrido. Dele, somente uma família foi poupada, a família de Noé, e dela se repovoou a Terra (Genesis 10.32). Os sobreviventes da catástrofe universal, os descendentes de Noé (a única família salva da destruição) constituíam a Igreja dos filhos de Deus, que recomeçava na Terra, após o Dilúvio (Genesis 9.1-19; 1 Pedro3.20-21).

Algum tempo depois do Dilúvio, a Igreja dos descendentes de Noé, cujo tempo de existência, número de membros e situação espiritual não podemos conhecer com precisão, foi então seduzida pelos sonhos de grandeza, fama e poder (Gênesis 11.1-4), e resolveram se ajuntar em uma grande congregação na planície de Sinear, construindo uma grande cidade com uma grande torre.

Vendo naquele  grande projeto a oportunidade para uma rápida proliferação do mal, assim como ocorrera antes do Dilúvio, Deus desaprovou e  frustrou aquele grande projeto, dispersando a grande congregação de Sinear (Gênesis 11.5-9).

Como os pré-diluvianos habitantes da Terra, aquela geração de  Noé havia se esquecido de Deus como o Criador e Redentor da humanidade; e mais, ela havia se esquecido de que era, em sua totalidade, uma geração que Deus poupara da total destruição no Dilúvio; ela havia ignorado a soberania e propósito de Deus na criação do homem  e na redenção do pecador. Ao invés de desfrutar da bondade e misericórdia de Deus com serviço e adoração (a forma de amar a Deus – Mateus 22.37), a multidão congregada em Sinear buscava a sua própria glória.

Os homens, feitos à imagem e semelhança de Deus (Gênesis 1.26), continuamente sofrem da tentação de se tornarem iguais Deus (independentes, poderosos e admiráveis). Foi esta a primeira tentação e causa do pecado (Gênesis 3.4-5).

Entretanto, estamos infinitamente distantes da auto-suficiência de Deus, e até os mais poderosos dos homens querem se cercar de uma multidão de amigos, servos, soldados e admiradores (quer seja pela inteligência, força ou beleza). Também nos orgulhamos de morar em uma grande cidade, de sermos parte de uma grande torcida de um time de futebol, de termos muitos amigos em nossa rede social; nos sentimos mais confortáveis quando pensamos de acordo com a maioria, ou temos a sua aprovação. Até as grandes igrejas (congregações locais e denominações) exercem grande fascínio, atração e influência sobre os cristãos.

Ser parte de um grande grupo, tribo, nação, religião ou igreja realiza nossos sonhos de grandeza, fama e poder, ou seja, a ilusão de que somos deuses, se não isoladamente, pelo menos em uma grande união de forças. Se estamos sozinhos, ou rodeados de pouca gente, nos sentimos inseguros e infelizes.

Entretanto, quando decidimos nos juntar aos que estão empenhados em contruir uma grande torre, como a que, pelo juízo de Deus, ficou conhecida pelo nome Torre de Babel, nós ignoramos Deus, seu propósito em nossa Criação e Redenção, e o seu poder e a sua glória.

A confiança em nossos números é terrivelmente enganosa. Nossos números não impressionam a Deus (Deuteronômio 7.7). Para eliminar a confiança de Israel em sua própria força, Deus dispensou mais de 99% do exército sob o comando de Gideão, e com menos de 1% o fez vitorioso (Juízes 7.1-7). Deus desaprovou um censo ordenado por Daví, no apogeu do seu reinado, certamente considerando a vanglória dos números (1 Crônicas 21.1-8).

Não podemos construir torres que simbolizam ou expressam a confiança no poder do homem sem romper com os propósitos e mandatos de Deus. Para ajuntar o maior número possível de pessoas, ou para entrar nas grandes correntes das multidões, precisamos abandonar os absolutos e relativizar as verdades que encontramos nas Escrituras Sagradas. Porém, não foi para isto que Deus nos criou e nos salvou.

Para preservar suas multidões alcançadas ao preço da infidelidade à Palavra de Deus, e atrair outras, o atual Papa da Igreja Católica Romana tem acenado a uma nova ética sexual; e, recentemente, ele declarou que a teoria de evolução é compatível com o relato bíblico da Criação. O mesmo já vem acontecendo em seguimentos do Protestantismo.

Hoje, a predominante forma de evangelismo dos chamados Evangélicos nada mais é que a proposta de, com Jesus, trazer ao ser humano as suas grandes aspirações como amor, paz e relacionamento entre outras justas aspirações do homem (isto, entre os mais idealistas) ou cura e prosperidade (entre os mais pragmáticos). Tal forma de evangelismo é caracterizada por minimizar a gravidade do pecado, e ignorar que este é a causa da separação ou inimizade entre Deus e o homem. Esta justa inimizade é irreconciliável, exceto pela cruz de Cristo Jesus; o que este predominante estilo de evangelismo torna em um detalhe sem grande importância (1 Coríntios 1.17-18; Efésios 2.13-18; Filipenses 3.18). Certamente, um Jesus sem cruz é mais atraente ao homem arrogante, que não reconhece o pecado e sua gravidade; porém, este com certeza não é o Jesus das Escrituras, por quem elas existem (João 5.39).

Uma recente pesquisa feita nos Estados Unidos revela os resultados de um evangelismo que evita certas verdades bíblicas que são consideradas ofensivas à mentalidade contemporânea (Ligonier Ministries, LifeWay Research and TheStateOfTheology.com:
§   Somente 51% do s Evangélicos acreditam que até o menor pecado merece condenação (da parte de Deus);
§   Dos Evangélicos 44% acreditam que, embora cometa pecados, a maioria das pessoas é boa por natureza;
§   Dos Evangélicos, 68% acreditam que é do homem a iniciativa para a reconciliação com Deus;
§   Dos Evangélicos 54% acreditam que o homem, com as suas obras contribui para a sua salvação.

Que crescimento de igreja é este? Que exército de Deus é este, em que os seus indisciplinados soldados precisam não precisam dominar seus desejos impróprios? Que multidão de “crentes” é esta que não crê na Palavra de Deus? Que cristãos são estes, que não conhecem a Jesus Cristo?

Deus criou o homem e a mulher, abençoou-os, e lhes ordenou “sede fecundos, multiplicai-vos e enchei a terra” (Gênesis 1.28).  Após salvar do Dilúvio a geração de Noé, Deus também ordenou: “sede fecundos e multiplicai-vos, povoai a terra e multiplicai-vos nela” (Gênesis 9.7). À Igreja iniciada em Jerusalém, Jesus também ordenou avançar, crescer entre as nações (Mateus 28.18-20; Marcos 16.15; Lucas 24.46-47). Entretanto, o crescimento que Deus ordena, aprova e sustenta é somente aquele que acontece associado à confiança, fidelidade serviço e glória a Deus.  Quando o homem pecou originalmente, a bênção foi substituída pela maldição (Gênesis 3.17). Quando os resgatados do Dilúvio passaram a buscar a própria glória, construindo a Torre de Babel, Deus desfez a sua união, dispersou-os pela Terra, e confundiu sua linguagem (Gênesis 11.8-9).

Como a igreja iniciante em Jerusalém, após haver recebido o prometido grande “derramamento do Espírito Santo, se sentia confortável em seus “quase cinco mil” membros (no mínimo), e se demorava em sair para anunciar Jesus Cristo em toda a “Judéia, Samaria, e até aos confins da terra” (Atos 1.8) (inclusive os seus milhares de membros que nem eram originalmente moradores de Jerusalém); a providência de Deus empregou uma grande perseguição, iniciada após o martírio de Estevão, para dispersar a grande igreja em Jerusalém, que começou a pregar “nas regiões da Judéia e Samaria” (Atos 8.1-8).

O poder da igreja não depende do número de seus membros, nem de sua arrecadação financeira ou de seu patrimônio material. O poder da Igreja está no fato de ser ela habitação (casa) de Deus, o Espírito Santo (1 Coríntios 3.16). Para que uma igreja continue sendo habitação de Deus, ela deve ser arrumada conforme a vontade soberana de Deus, para a glória e satisfação de Deus (2 Timóteo 3.14-16), não conforme nossos sonhos de grandeza, fama e poder.

Fomos chamados para ingressar e tomar parte na construção da Igreja de Deus, não para construir Torres de Babel (confusão, em vitude da desaprovação de Deus). Apesar do grande movimento de apostasia de nosso tempo, precisamos preservar o conteúdo bíblico do Evangelismo, e as razões e princípios bíblicos para a edificação da Igreja.

Quando evitamos algumas verdades bíblicas para facilitar a agregação de membros, deixamos de construir a Igreja de Cristo para edificar uma Torre de Babel; assim como a original Torre de Babel recebeu o juízo de Deus, assim têem sido julgadas as suas réplicas. Israel e Judá tiverem suas torres de Babel julgadas. Nestes dois mil anos de história da Igrejas outras torres de Babel também têm sido contruídas pelos homens e desprezadas por Deus. A Reforma do século XVI foi um grande juízo de Deus contra a torre de Babel do Catolicismo Romano.

Hoje, além do Catolicismo Romano, também existem torres de Babel Protestantes; e elas estão se multiplicando rapidamente.  Por isso, conclamamos os filhos de Deus  a voltarmos ao “primeiro amor” (Apocalipse 2.4), o amor a Deus “... de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento” (Mateus 22.37). Isto é voltar ao encantamento com a glória de Deus, sumamente revelada em Cristo Jesus (2 Coríntios 4.1-6). Este é o Cristo das Escrituras (João 5.39), não a caricatura de um cristo “reconstruído” para agradar aos pecadores arrogantes e impenitentes, com os quais queremos encher ou manter nossas igrejas grandes.

“Tenho ouvido, ó Senhor, as tuas declarações, e me sinto alarmado; aviva a tua obra, ó Senhor, e, no decurso dos anos, faze-a conhecida; na tua ira, lembra-te da misericórdia." (Hacuque 3.2)



Wednesday, 24 September 2014

A Igreja de Cristo É o Reino de Deus em Progressiva Manifestação na Terra


O Evangelho Segundo Mateus é basicamente identificado como o “Evangelho do Reino”. De fato, uma de suas mais carcterísticas expressões é o “reino dos céus”, equivalente a “reino de Deus” nos demais Evangelhos.

Mateus apresenta Jesus como o herdeiro do reino de Daví (Mateus 1.1). Este herdeiro do trono de Daví não é um rei comum; Ele salva o seu povo dos seus pecados (Mateus 1.21). Ele é certamente o Rei prometido por meio do profeta Isaías (Isaías 9.6-7).

Com Jesus veio o reino dos céus (Mateus 4.17), não com forma ou aparência opulenta, como profetizou Zacarias (Zacarias 9.9); e logo, Jesus começou a escolher homens com o propósito de fazer deles “pescadores de homens” (Mateus 4.19) para o reino dos céus. Os seguidores próximos de Jesus são chamados de “discípulos” (Mateus 5.1).

Aos seus discípulos, Jesus apresenta os “estatutos” do reino dos céus (Mateus 5-7). Estes são tão justos quanto a Lei trazida pelo profeta Moisés, mas têm uma especial ênfase na “misericórdia” (Mateus 5.7; 9.13; 12.7).

Ao chamar o publicano Mateus para juntar-se aos seus discípulos (Mateus 9.9), Jesus se vê rodeado de “publicanos e pecadores”; ao ser questionado por tal associação, Jesus respondeu que veio chamar pecadores (Mateus 9.13), isto é, salvar pecadores (1.21), chamando-os ao arrependimento e ao reino dos céus (4.17) – o reino dos céus não deve estar socialmente separado do mundo, mas se distingue por seus “estatutos” justos e misericordiosos.

Quando pregava o “evangelho do reino” ao povo, Jesus falou aos seus discípulos da grande seara que são as multidões (“ovelhas que não têm pastor”) e os estimulou a orar por mais trabalhadores (Mateus 9.35-38).

Jesus separa “doze discípulos” que são chamados “apóstolos”, e lhes dá autoridade semelhante à sua, para pregarem o “reino dos céus” (a princípio, dando preferência à “ovelhas perdidas da casa de Israel), exortando e encorajando em relação às dificuldades que terão a enfrentar, requerendo que sejam simples, humildes, mansos, mas corajosos (Mateus 10).

Jesus chama os “cansados e sobrecarregados” (“multidões... aflitas e exaustas” 9.36) para o seu governo (“jugo”) e ensino; pois Ele é o prometido Rei, “manso e humilde de coração”; embora Ele seja o soberano Senhor, do templo e do sábado (Mateus 11.28-12.8).

Em meio a controvérsias, graves ofensas (blasfêmias) e conspirações da parte dos líderes religiosos, chamados “pastores” das “ovelhas da casa de Israel” (Mateus 12), Jesus proferiu várias parábolas que revelavam aos seus discípulos os “mistérios do reinos dos céus” (Mateus 13, [11]).

Então, Jesus, em resposta ao reconhecimento de que Ele é “o Cristo, o Filho do Deus vivo” (Mateus 16.16) se refere ao seu reino como a sua “igreja”, contra a qual “as portas do inferno não prevalecerão” (Mateus16.18).

No fracassado “reino de Israel” cresce a rejeição  ao Salvador, Jesus (1.21) Cristo, o Filho do Deus vivo” (16.16); mas, Jesus anuncia que “será pregado este evangelho do reino por todo o mundo, para testemunho a todas as nações” (Mateus 23.37-24.14; [24.14]), antes do fim (24.14), a consumação do estabelecimento do “reino dos céus” na gloriosa volta de Jesus Cristo (Mateus 24.15-25-46).

Jesus Cristo foi morto, em parte pela conspiração dos homens, mas principalmente para cumprir o propósito de Deus, segundo o qual Jesus morreu em lugar dos pecadores a quem veio salvar, e receber em seu reino (Mateus 26.26-29; Atos 2.22-24, 36-39). Sim, Ele ressurgiu ao terceiro dia, como havia prometido (Mateus 28.6), e ascendeu aos céus (Marcos 16.19), de onde governa todos os poderes, visíveis e invisíveis (Efésios 1.19-23). Antes, porém, ordenou aos seus discípulos: “Ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado. E eis que estou convosco todos os dias até a consumação do século (Mateus 28.19-20).

Fazer “discípulos de todas as nações”, esta é a “grande comissão” de Jesus aos seus discípulos, e isto significa ou compreende:

§   Pregar “o evangelho do reino” a todas as nações (Mateus 24.14);

§   Pelo batizmo, sinalizar, o ingresso no reino dos céus (a Igreja de Jesus Cristo) daqueles que crêem no evangelho – Jesus, o Salvador (1.21), o Cristo, o Filho de Deus (16.16).

§   Ensinar toda a revelação de Deus que faz dos discípulos de Cristo (os cidadãos do reino dos céus ou membros da Igreja) adoradores do Deus Triúno e obedientes servos de Jesus Cristo.

Não podemos levar a Igreja ao mesmo fracasso de Israel; não podemos, mas, tentamos; não podemos, entretanto, Jesus Cristo não permitirá que isto aconteça.

Precisamos tomar todo o cuidado em não tentar usurpar a Igreja (ou uma igreja) de seu único Senhor, Jesus Cristo. A igreja não é nosso negócio, hobby, associação ou clube. Israel era igreja de Deus; porém, quando Deus, cumprindo sua promessa, veio em Cristo, Israel o rejeitou; e, assim foi, porque Israel, apesar de haver sido instrumentalizado por Deus para dar ao mundo as Escrituras Sagradas (Antigo Testamento), havia substituído as Escrituras pelas doutrinas e tradições criadas através de séculos de intensa atividade religiosa, e transformada a nação santa em um negócio dos homens.

A Igreja está destinada a ser a progressiva manifestação do reino dos céus até a sua consumação na volta de Jesus Cristo. A Igreja é a manifestação progressiva do reino dos céus de modo muito mais pleno do que poderia ter sido Israel, mesmo que fosse fiel à Palavra de Deus (as Escrituras). Israel era Igreja e Estado; a Igreja é o reino dos céus independentemente do Estado. A Lei (ou estatutos) de Israel (Lei de Moisés) é a lei de uma igreja-estado.

Entretanto, a lei da Igreja (reino dos céus) é a regra do “Sermão do Monte”, mais rigorosa quanto às intenções do coração que qualquer lei poderia ser (Mateus 5.17-37), e mais cheia de compaixão pelos trangressores e de perdão (Mateus 5.38-48).

A lei da igreja-estado prescrevia diversas penalidades e até condenava à morte os homicidas, adulteros e falsos profetas; mas a Igreja (o reino dos céus) chama a todos e quaisquer pecadores ao arrependimento dos pecados e reconciliação com Deus, por meio da fé em Jesus, o único Mediador entre o Deus justo, santo e misericordioso e nós, os pecadores (1 Coríntios 6.9-11).

No contexto em que Jesus Cristo falou da edificação de sua Igreja, Ele mencionou a autoridade da Igreja em abrir as portas do reino dos céus (Mateus 16.19). A missão da Igreja é, pelo Evangelho, derrubar as “portas do inferno” (Mateus 16.18) e libertar os cativos, cansados e oprimidos, acolhendo-os em seu seio, no reino dos céus.

As Escrituras não devem ser utilizadas para criar regras humanas de censura e exclusão de cidadãos do reino dos céus:

§   As Escrituras são o veículo de comunicação de Jesus Cristo e sua obra redentiva (João 5.39).

§   Como consequência de seu principal propósito, as Escrituras são também instrumento de formação do caráter de Jesus Cristo nos crentes, e visam dar o conhecimento necessário e útil aos cidadãos do reino dos céus, até à consumação do reino (2 Timóteo 3.14-17).

Portanto, a Igreja somente deve censurar ou excluir (Mateus 18.15-20) os que, negando a própria fé, se recusam a abandonar o erro (seja doutrinal ou prático), que é indubitavelmente definido nas Escrituras, como passível de censura ou exclusão.

Como um último recurso, visando a recuperação do próprio membro que insiste no erro, e para evitar a corrupção dos demais membros, Igreja de Cristo deve, censurar e, por fim, até excluir quem, por exemplo, nega a exclusividade de Jesus Cristo como o Salvador dos homens (Mateus 1.21), sua plena divindade e humanidade (Mateus 16.16), e o ser Triúno de Deus (Mateus 28.19). A igreja deve censurar e até excluir os que insistem em adorar a Deus por modo contrário à Sua vontade expressa, tratam levianamente ou desprezam o culto a Deus (Êxodo 20.1-11), e os que insistem em violar o devido respeito à vida humana (Êxodo 20.12-17).

Entretanto, a Igreja não deve censurar ou excluir por causa de “comida e bebida, ou dia de festa, ou lua nova, ou sábados...” (Colosenses 2.16). A Igreja não deve ter uma mentalidade excluidora, mas inclusiva (Romanos 14.1-15.13); a Igreja deve amar e  acolher, instruir e aconselhar o fraco, o “débil na fé” (Romanos 14.1). Há um limite na competência julgadora da Igreja, que visa a correção do faltoso e guardar a Igreja da contaminação pelo erro relativo ao culto a Deus e o respeito à vida humana. Há questões que estão fora do escopo disciplinar da Igreja; e, estas, a Igreja deve deixar exclusivamente aos cuidados da soberania divina (Romanos 14.10-12), para não incorrer no pecado causar “tropeço ou escândalo” ao irmão (Romanos 14.13), e confusão ao reino dos céus.

Também, não é papel da Igreja exigir que o Estado execute a pena de morte, mas seguindo o exemplo de Jesus (João 8.1-11), deve sugerir ou pedir a misericórdia para com os pecadores arrependidos. Embora existam semelhanças entre os profetas do Antigo Testamento e o apóstolos do Novo Testamento; não podemos ignorar o fato de que aqueles exerceram seu ofício no contexto da Igreja-Estado de Israel; mas, os apóstolos exerceram seu ofício no contexto da Igreja da Nova Aliança que é mais plena ou completa, como manifestação do reino dos céus, como jamais Israel poderia ter sido. Um profeta poderia requerer ou até executar a pena de morte (1 Samuel 15.33), um apóstolo reconhecia o poder da vara e da espada do Estado (Romanos 13.1-7), mas sempre apelava para a compaixão, o perdão e a reconciliação (Filemon 8-18); assim deve fazer a Igreja hoje.

Se a Igreja deve mostrar compaixão para com os que estão fora dela, não poderia ser diferente para com os que lhe pertencem e a formam. Sem ignorar o fato de que nela se introduzem “inimigos de de Cristo” ou “lobos vestidos como ovelhas” que devem ser identificados e excluídos (1 Coríntios 5.9-13); a Igreja não pode ignorar que o Senhor Jesus Cristo com sua Igreja (que é seu corpo, seus ramos e seu edifício) é o abrigo e fortaleza para todos os pecadores, cansados e oprimidos, arrependidos e crentes (2 Coríntios 2.5-11), e que os “débeis na fé” não estão excluídos.

A Igreja da Nova Aliança é a mais plena e progressiva manifestação do reino dos céus, e jamais fracassará. Ela perseverará até a consumação do reino dos céus; porque Jesus Cristo já veio, e, havendo cumprido seu prometido “sacrifício redentivo” tornou possível o também prometido “derramamento do Espírito Santo”, e, consequentemente, a “inscrição da lei nos corações” (Jeremias 31.33; Ezequiel 36.24-28) dos filhos do reino dos céus, de modo que a lei da Igreja seja apropriadamente chamada “a Lei do amor” que se resume em dois mandamentos: “amarás o Senhor, teu Deus, de todo coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento... Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mateus 22.36-40).

Que sabendo estas coisas, nós, crentes individualmente e igrejas consciente, ativa e devotadamente busquemos o progresso do reino dos céus durante o precioso tempo que Deus nos dá agora, e não sejamos encontrados trazendo confusão e divisão ou promovendo obstáculos ao progresso da Igreja de Cristo, o reino dos céus, já presente na terra.

Saturday, 5 July 2014

Família, Igreja e Estado

Embora estas três instituições Família, Igreja e Estado, estejam sob o domínio de Deus, são esferas diferentes da ação e governo de Deus entre os homens. Uma das mais básicas diferenças está na orígem e propósito de cada uma: A família, a mais antiga e fundamental entre a três, foi instituída por Deus ao final de sua obra da Criação. A Igreja é o fruto e resultado da obra da Redenção, iniciada por Deus quando o homem conheceu o mal (Gênesis 3); a obra da Redenção está em processo, ainda não concluída, embora bastante avançada, desde que Jesus Cristo, o prometido Redentor, já se manifestou para tirar o pecado (João 1.29). A obra da Redenção será concluída na segunda vinda de Jesus (Apocalipse 21.22-22.5).

Uma vez que o homem se tornou conhecedor do mal, isto é um pecador, a Família se mostrou incapaz de impedir ou controlar o progresso do mal na sociedade humana; e a Igreja (em sua forma mais remota), embora seja idealmente a comunhão dos pecadores arrependidos e reconciliados com Deus, também se revelou incapaz de conter o crescimento do mal na sociedade humana. Então, após o Dilúvio (o maior juízo de Deus já ocorrido na história da humanidade), Deus mesmo lançou a semente do Estado. Deus havia antes proibido que qualquer pessoa matasse o primeiro homicida, Caim (Gênesis 4.8-16). Porém, após o Dilúvio, ocorrido por causa da multiplicação da maldade e violência humana (Gênesis 6.5,11), Deus ordena ao homem exercer controle sobre a violência, permitindo a pena de morte (Gênesis 9.6).

O Estado existe principalmente para proteger o ser humano da própria violência humana, desde que o homem escolheu conhecer também o mal, tornando-se um pecador ou transgressor da Lei de Deus (1 João 3.4), a Lei eterna e universal (Êxodo 20.1-17), a Lei do Amor (Mateus 22.34-40).

O papel da Família é fazer “crescer e multiplicar” (Gênesis 1.27-28; 9.1) a humanidade, cuidar dos filhos (alimentar proteger), educar ou treinar os filhos para o culto a Deus, para o trabalho, e a construção de uma pacífica, justa e próspera sociedade humana. A missão da Igreja é promover o Evangelho de Jesus Cristo que anuncia o perdão, justificação de pecadores (transgressores da Lei) e a reconciliação com Deus, gratuitamente, somente pela fé em Jesus Cristo (Romanos 5.1); enquanto ela mesma (a Igreja) vive no mundo em conformidade com a Lei de Deus (Mateus 5.14-16). O papel principal do Estado é zelar pelo cumprimento da Lei, no que tange a relação entre os homens, e até trazer a vara ou a espada sobre os transgressores da Lei, que atentam contra a vida humana, contra a integridade e o bem da sociedade humana (1 Pedro 2.11-17).

O Estado deve exercer autoridade sobre todos os seus cidadãos nos limites do seu território. A Igreja exerce governo somente sobre os crentes e seus filhos, em uma determinada congregação, e não possui, nem governa qualquer território. As famílias (as verdadeiras proprietárias de cada porção de terra que forma o território governado por um Estado), idealmente, a partir do casal que vive em amor e mútua cooperação, em harmonia com a fiel Igreja, e no contexto um Estado justo, criam, educam e disciplinam os seus filhos com amor, liberdade e responsabilidade. É assim que famílias e nações properam através de gerações.

Um Estado justo protegerá as famílias e suas propriedades, e até a Igreja na fiel pregação do Evangelho, contra toda forma violência humana. A Igreja não pode usar a estrutura (“maquina”) estatal para tentar alcançar os seus objetivos. Porém, a Igreja e a Família, a primeira como instituição social da Redenção e a segundo como instituição social da Criação não podem deixar de se associar para atingir os seu objetivos soberanamente propostos por Deus. Entretanto, as três instituições podem, cada uma no âmbito de sua autoridade, contribuir decisivamente para atingir o principal objetivo do Estado que é reprimir qualquer tipo de violência, ou promover a justiça no ambito da sociedade, o que nem a Família nem Igreja podem fazer, sem o suporte do Estado.

Tanto a Igreja quanto o Estado são constituídos de famílias; porém, a Igreja e o Estado não podem ignorar o fundamental papel da Família e ignorá-la; nem tão pouco podem eles (Igreja e Estado) tentar suprimir ou dominar, um ao outro, e nem mesmo aceitar o domínio de um sobre o outro. Quando a Igreja ou Estado tentam dominar um ao outro, eles estão usurpando o lugar de Deus.

Estas três instituições devem ser humildes, e, assim, entender que embora sejam instituídas (aprovadas) por Deus, são constituídas de homens e mulheres que conheceram (conhecem) o mal, e estão sujeitas a errar (pecar). O Estado deve ouvir a voz das famílias que o constituem, e da Igreja; a Igreja também deve ouvir a voz do Estado e da Família; afinal, a Igreja também é constituída de pessoas que conheceram ou conhecem o mal; ela não é infalível. As famílias também devem ouvir a voz da Igreja e do Estado; porque, enfim, muitas violências acontecem dentro da própria família.

O Estado não deve ser Cristão (nem tão pouco anti-Cristão); e isto, simplemente porque o Estado não é, como a Igreja é, nem resultado, nem instrumento da obra da Redenção. O Estado existe para promover a justiça na sociedade, e conter toda forma de injustiça. Por isso, o Estado tem que ser justo; e para ser justo o Estado tem que conhecer a Lei de Deus, a Lei eterna e universal; mas, nem por isso, o Estado se torna religioso ou cristão. Como já mencionado, as Escrituras Sagradas (a base da fé Cristã) nos dão uma enorme ajuda na busca do conhecimento da Lei Eterna (Êxodo 20.1-17); entretanto, esta Lei também está gravada na mente de cada ser humano (Romanos 2.14-15) que, em sua maturidade e no devido uso da razão, deveria ser capaz de identificá-la. É devido a esta capacidade que cada indivíduo adulto e o próprio Estado são responsáveis perante Deus, e a Ele, no devido tempo, prestarão contas.

Se o Estado se torna Cristão, ele se torna parte da Igreja; ou ele a dominará, ou será dominado por ela; e, assim, em qualquer hipótese, um corromperia e destruiria o outro. O reconhecimento e a distinção institucional entre Estado, Igreja e família precisam ser observados; entretanto, a distinção não significa separação ou inimizade. A sociedade humana precisa destas três instituições.

Quando a Igreja se estabelece e cresce, fiel à Palavra de Deus, ela se torna uma grande ajudadora das famílias na educação e disciplina dos filhos, e, consequentemente, também ajudadora do Estado, em seu dever de defender (preventivamente) a vida humana de toda forma de violência.

É função da Igreja também instruir e encorajar os crentes a honrar e orar pelas autoridades estatais, no cumprimento do seu dever fundamental de proteger a vida (1 Timóteo 2.1-2).

A maior ajuda ou benefício que a Igreja pode trazer à sociedade é a pregação do puro Evangelho, que não engana pecadores, trazendo-os à igreja sem conversão; mas, pelo poder do Espirito Santo, que transforma o mais cruel pecador no mais dócil e humilde servo de Deus.

Há quem queira uma sociedade sem Estado; estes podeml ser identificados como “anarquistas”. Entretanto, hoje parece predominar a preferência por um Estado forte, se não absoluto, mediante a supressão da Igreja, e agora, mais recentemente, pela supressão da família também.

Neste perigoso contexto, alguns cristãos podem pensar que a solução seria um Estado Cristão, e até usam a antiga teocracia de Israel como o seu principal fundamento. Entretanto, o completo fracasso da teocracia de Israel deveria ser suficiente para convencer todo cristão de que a fusão Igreja e Estado é uma ilusão com gravíssimas consequências.

Através da forma de Igreja-Estado uma vez estabelecida no antigo Israel, devemos aprender a lição de que governo de Deus não depende de um “trono visível”, como pensaram os israelitas ao fim do período dos Juízes (1 Samuel 8.1-7); porém, é a partir dos corações dos homens que o reino de Deus se estabelece (Lucas 17.20-21); isto é, no coração daqueles que reconhecem a soberania de Deus como o Criador e Redentor.

Além desta perspectiva das Escrituras Sagradas apresentada, a História tem demonstrado que a anarquia não funciona, e o “casamento” Igreja e Estado é autodestrutivo; porém, um Estado “todo-poderoso” é um grande desastre para uma sociedade ou nação. Entretanto, a coexistência das três instituições (Família, Igreja e Estado) igualmente respeitadas, preservadas e operando cada uma a sua própria esfera, podem contribuir para uma sociedade equilibrada, pacífica e próspera, uma nação forte.

O Estado tem algumas ferramentas que a Família e a Igreja têem para controlar a injustiça; entretanto, nem com suas próprias ferramentas, o Estado jamais conseguirá erradicar a violência. Contudo, um Estado justo pode, de fato, conter o crescimento da violência. A erradicação da violência somente acontecerá, como já foi mencionado, quando a obra da Redenção estiver concluída, após a segunda vinda de Jesus Cristo, quando o seu reino eterno será universalmente reconhecido (Filipenses 2.5-11).

A paz e prosperidade de uma cidade, provícia ou nação dependem, não de que tenham hoje qualquer tipo de “partido cristão” no poder, ou um prefeito, governador ou presidente cristão, mas de que Jesus Cristo reine nos corações de seus cidadãos. Por isso, enquanto aguardamos a gloriosa volta de Jesus Cristo, preguemos fielmente o seu Evangelho, amemos preservemos a família conforme instituída por Deus desde a Criação, e honremos o Estado na escolha homens que têm demonstrado respeito à Lei, para o exercício da autoridade civil.