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Sunday, 17 July 2016

O que É mais Difícil: Fazer um Jumento Falar, ou um Religioso Ouvir a Deus?

Lendo a Bíblia, no livro chamado Números (capítulos 22-24), o quarto livro da primeira parte da Bíblia, parte conhecida como o Antigo Testamento, deparamo-nos com a intrigante história do profeta Balaão; e com o estranho milagre de uma jumenta que falou.

Sim, este é um milagre estranho; porque, na Bíblia, os milagres têm um certo padrão. Em geral, eles consistem em criar, intensificar ou fazer cessar fenômenos naturais; há alguns poucos casos em que milagres causaram enfermidades, a grande maioria é de cura, e também alguns raros casos de ressurreição de mortos. Em geral, os milagres da Bíblia geram efeitos expectados, seja com temor, ou com esperança; por mais impossíveis que pareçam, ele têm uma certa racionalidade.

Papagaios, e algumas outras espécies de aves próximas daqueles, possuem uma impressionante habilidade de imitar a voz humana, repetindo palavras e expressões idiomáticas. Alguns cães parecem tentar acompanhar o canto de uma música. Porém, um jumento falar, e argumentar de forma perspicaz, isso é demais!

O meio mais comum de Deus se comunicar foi através de profetas, antes de comunicar por Jesus Cristo (Hebreus 1.1-2). Outras vezes se comunicou através de anjos (Lucas 1.26-27); ou, simplesmente, por uma "voz vinda do céu" (Mateus 13.17).

No livro de Gênesis, capítulo 3, lemos sobre o diálogo que a serpente teve com a mulher; porém, em Apocalipse 12.9, lemos que o “grande dragão (é) a antiga Serpente, que se chama diabo e Satanás”. Ainda assim, uma jumenta falando, é um relato bastante curioso, chega parecer lendário.

Por mais espetacular e estranho que seja, longe mim duvidar que aquela jumenta tenha falado, claro, somente naquele momento. Afinal, como disse Jesus: "para Deus tudo é possível", até fazer “entrar um rico no reino de Deus” (Mateus 19.24-26). Certa vez, para demonstrar sua autoridade divina para perdoar pecados, Jesus curou um paralítico, que passou a andar imediatamente (Mateus 9.1-8).

Deus é o Criador de um universo de "ilimitada" variedade, um mundo de impressionantes surpresas. “Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras das suas mãos” (Salmos 19.1); porém, o homem se recusa a glorificar a Deus, e lhe dar graças (Romanos 1.21); e mais, “não há quem entenda, não há quem busque a Deus” (Romanos 3.11). Então, um milagre pode, ao menos por algum instante, fazer com que o homem pare e pense em Deus. Além disso, fazer um jumento falar diante de um líder religioso é algo especialmente sugestivo, instrutivo, apropriado e marcante.

Quem é Balaão? Muitos cristãos, hoje, tendem a "santificar" os judeus (israelitas), e "demonizar" os demais povos. Assim, Balaão é tido, por muitos, somente como um odioso inimigo dos interesses de Israel, e até indigno de qualquer tipo de comparação com o povo de Israel, ou com personagens história de Israel.

Entretanto, não deveríamos ignorar que Balaão é um descendente de Noé, com quem Deus fizera um Pacto de Salvação, após o Dilúvio. Nos dias de Abraão, não somente os povos cananitas, descendentes de Cam, filho de Noé, mas igualmente os povos jafetitas e semitas, também descendentes de Noé, estavam todos corrompidos. E, destes últimos, os semitas, também descende Abraão, pai da nação de Israel, e provavelmente o próprio Balaão. Havia muito tempo, as nações, de modo geral, haviam se afastado da fé, e desprezado a Aliança que Deus fizera com Noé, e suas gerações.

Portanto, devemos pensar em Balaão como um líder religioso, um profeta, entre um povo que tinha uma remota conexão com a fé do patriarca Noé, e com Aliança Salvadora que Deus fizera com Noé, e sua descendência.

Como foram vários corrompidos reis, profetas e sacerdotes na história de Israel, como pastores corrompidos, em igrejas deformadas no âmbito da cristandade, assim era Balaão no seu tempo; ele era um líder religioso projetado, e até temido, muito além de sua base, ao norte da Mesopotâmia, no mundo de então. Balaão era respeitado inclusive na distante terra de Canaã, lugar de uma multifacetada religião apóstata, nascida onde e quando morrera a fé legada por Noé aos seus descendentes.

No período entre Abraão e Moisés, outros dois líderes se destacaram, e de forma mais positiva que Balaão: o misterioso Melquisedeque que Abraão conheceu, também chamado "sacerdote do Deus Altíssimo, e que é um dos mais expressivos tipo de Jesus Cristo; e Jetro, um sacerdote de Midiã, sogro de Moises, mostrou-se um prudente conselheiro.

Balaão, entretanto, era possivelmente também um sacerdote, inegavelmente era um profeta, um influente líder religioso, típico de uma geração em decadência espiritual, moral e cultural.

Quando a nação de Israel, não por seus méritos, mas conforme o eterno propósito de Deus e sua infinita misericórdia, após sua libertação do cativeiro no Egito, e ao final de quarenta nos de peregrinação no deserto, começa a conquista da terra de Canaã, aparece Balaão.

Esse homem não era completamente ignorante sobre Deus. Ele mesmo considerava-se um homem com "olhos abertos", “que ouve os ditos de Deus” e que tinha “a visão do Todo-Poderoso” (Números 24.3-4). Ele sabia que como profeta deveria comunicar fielmente a Palavra de Deus (Números 22.18). Entretanto, Balaão era ao mesmo tempo um homem moldado para (e pela) busca da fama e poder. Ele conhecia e desejava a fama e o poder, mais do que servir a Deus. Como sua fama e poder foram obtidos por meio da religião, ele enganava, não somente aos outros, mas também a si mesmo com um falso zelo de profeta – uma falsa declaração da responsalidade de comunicar a verdade, a palavra (pensamento, propósito e vontade revelados) de Deus.

Deus conhecia o coração de Balaão, sabia que era um "marqueteiro" da fé, que trocaria (ou adaptaria) a verdade, a palavra de Deus, por um discurso que lhe trouxesse mais reconhecimento, ganho ou lucro.

Aparentemente, de acordo com a narrativa, Deus intervém, e, de alguma maneira, muda a rotina do religioso "poderoso" (Números 22.6), para falar diretamente ao tal profeta, e através dele. Deus ordena a Balaão que vá, e comunique fielmente o que ouvir, da parte de Deus. Balaão vai, mas, pensando que fará o que costumava fazer, um discurso agradável ao interessado, e receber um pagamento compensador.

Por longo tempo, Deus deixou Balaão enganar multidões que não se importavam em serem enganadas (que por várias gerações haviam abandonado a Aliança de Salvação feita por Deus com Noé e suas gerações), ao ponto de que esse profeta se tornasse conhecido internacionalmente. Porém, agora haveria de ser diferente; por isso, Deus enviou o seu Anjo, não um anjo qualquer, mas, o Anjo do Senhor, o seu Filho Eterno, o Redentor dos homens, Jesus Cristo, antes de sua encarnação.

Balaão, não no princípio, mas depois, viu Jesus Cristo, "com uma espada na mão". Teria sido somente deste modo que o profeta Balaão, pessoal e intimamente, experimentou a palavra de Deus, como uma "espada opositora", e jamais como o "pão” espiritual, pelo qual o homem vive (Mateus 4.4)? Teria Balaão visto Jesus somente com uma espada na mão, e não o teria conhecido como o “pão vivo que desceu do céu”, para dar vida ao pecador, reconciliando-o com Deus (João 46.35, 41, 47-51)? Irônico e contraditório, especialmente tratando-se de um profeta? Triste? Sim, mas infelizmente possível.

Por fim, impedido por Deus de enganar, naquela ocasião, Balaão falou a verdade, comunicou fielmente a palavra de Deus, e, o mais importante, comunicou o próprio Evangelho, referindo-se de modo simbólico à vitoria final de Jesus Cristo sobre os inimigos de Deus e da humanidade, da verdade, justiça e paz (Números 24.17); pois Jesus em sua obra redentiva é o propósito e cerne da Profecia (Apocalipse 19.10).

Entretanto, antes do profeta, foi a sua jumenta que viu o Anjo do Senhor, desviou-se, empacou, e foi espancada pelo profeta. Porém, “O Senhor fêz a jumenta falar” (Números 22.28), e falou a verdade, com justiça e sabedoria. O Apóstolo Pedro referiu-se a este fato, como se segue: “... Balaão, filho de Beor, que amou o prêmio da injustiça, porém, recebeu castigo da sua transgressão, a saber, um mudo animal de carga, falando com voz humana, refreou a insensatez do profeta” (2 Pedro 2.15-16).

Deus fez uma jumenta falar; contudo, e ainda mais extraordinário, Deus fez um religioso, um profeta corrupto, primeiro ouvir a Deus, e depois falar a verdade diante dos homens; e, isto sim, é mais difícil do que um jumento falar.

Este relato incomum, miraculoso e estranho deveria nos impressionar profundamente, pois este é, ainda que limitadamente, uma capacidade, função e objetivo de um milagre. É razoável que Deus, não para responder um arrogante desafio humano, mas, mediante sua soberana vontade e sabedoria, e condescendência, por causa da dúvida de um humilde pecador, às vezes faça sua palavra acompanhada de algum milagre. É por isso que na sua palavra escrita (as Sagradas Escrituras) encontramos registros de alguns milagres.

Entretanto, a jumenta falar não deveria nos causar mais admiração do que a nossa capacidade de ignorar a justiça de Deus, e de desprezar a palavra de Deus, mesmo sendo ativamente religiosos. Sendo do tipo religioso, ou não, precisamos algum dia pedir Deus, com humildade, sinceridade e intensidade: "Desvenda os meus olhos, para que eu comtemple as maravilhas da tua lei (palavra)"; e, "... Ajuda-me em minha falta de fé" (Marcos 9.24).

Precisamos também, sair da sombra dos religiosos poderosos (já mortos ou ainda vivos), saber que não precisamos de intermediários entre nós e Deus, exceto de Jesus Cristo que é Deus:
1.    Em carne, ou encarnado – para ser acessível a nós, ou identificar-se conosco, redentivamente;
2.    Na História – para ser distinto de qualquer mito religioso;
3.    Crucificado – para quitar nossa dívida perante a perfeita justiça divina;
4.    Ressurreto – para ser reconhecido e distinguido como o único Salvador;
5.    Entronizado nos céus – para subordinar todos os poderes, e levar à plena realização a sua obra redentiva;
6.    Havendo enviado o seu Espírito – para não nos deixar agora sozinhos;

7.    E que voltará – para por fim na Terra a injustiça, sofrimento e morte.