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Friday, 31 October 2014

Edificando Igrejas ou Construindo Torres de Babel?

O que nós cristãos estamos fazendo hoje: edificando igrejas ou construindo torres de Babel? Antes de responder à pergunta convém relembrar o conhecido o relato bíblico que se refere a um importante acontecimento na História da Redenção, que se deu algum tempo depois do Dilúvio.

O Dilúvio foi o mais universal juízo de Deus sobre a humanide, já ocorrido. Dele, somente uma família foi poupada, a família de Noé, e dela se repovoou a Terra (Genesis 10.32). Os sobreviventes da catástrofe universal, os descendentes de Noé (a única família salva da destruição) constituíam a Igreja dos filhos de Deus, que recomeçava na Terra, após o Dilúvio (Genesis 9.1-19; 1 Pedro3.20-21).

Algum tempo depois do Dilúvio, a Igreja dos descendentes de Noé, cujo tempo de existência, número de membros e situação espiritual não podemos conhecer com precisão, foi então seduzida pelos sonhos de grandeza, fama e poder (Gênesis 11.1-4), e resolveram se ajuntar em uma grande congregação na planície de Sinear, construindo uma grande cidade com uma grande torre.

Vendo naquele  grande projeto a oportunidade para uma rápida proliferação do mal, assim como ocorrera antes do Dilúvio, Deus desaprovou e  frustrou aquele grande projeto, dispersando a grande congregação de Sinear (Gênesis 11.5-9).

Como os pré-diluvianos habitantes da Terra, aquela geração de  Noé havia se esquecido de Deus como o Criador e Redentor da humanidade; e mais, ela havia se esquecido de que era, em sua totalidade, uma geração que Deus poupara da total destruição no Dilúvio; ela havia ignorado a soberania e propósito de Deus na criação do homem  e na redenção do pecador. Ao invés de desfrutar da bondade e misericórdia de Deus com serviço e adoração (a forma de amar a Deus – Mateus 22.37), a multidão congregada em Sinear buscava a sua própria glória.

Os homens, feitos à imagem e semelhança de Deus (Gênesis 1.26), continuamente sofrem da tentação de se tornarem iguais Deus (independentes, poderosos e admiráveis). Foi esta a primeira tentação e causa do pecado (Gênesis 3.4-5).

Entretanto, estamos infinitamente distantes da auto-suficiência de Deus, e até os mais poderosos dos homens querem se cercar de uma multidão de amigos, servos, soldados e admiradores (quer seja pela inteligência, força ou beleza). Também nos orgulhamos de morar em uma grande cidade, de sermos parte de uma grande torcida de um time de futebol, de termos muitos amigos em nossa rede social; nos sentimos mais confortáveis quando pensamos de acordo com a maioria, ou temos a sua aprovação. Até as grandes igrejas (congregações locais e denominações) exercem grande fascínio, atração e influência sobre os cristãos.

Ser parte de um grande grupo, tribo, nação, religião ou igreja realiza nossos sonhos de grandeza, fama e poder, ou seja, a ilusão de que somos deuses, se não isoladamente, pelo menos em uma grande união de forças. Se estamos sozinhos, ou rodeados de pouca gente, nos sentimos inseguros e infelizes.

Entretanto, quando decidimos nos juntar aos que estão empenhados em contruir uma grande torre, como a que, pelo juízo de Deus, ficou conhecida pelo nome Torre de Babel, nós ignoramos Deus, seu propósito em nossa Criação e Redenção, e o seu poder e a sua glória.

A confiança em nossos números é terrivelmente enganosa. Nossos números não impressionam a Deus (Deuteronômio 7.7). Para eliminar a confiança de Israel em sua própria força, Deus dispensou mais de 99% do exército sob o comando de Gideão, e com menos de 1% o fez vitorioso (Juízes 7.1-7). Deus desaprovou um censo ordenado por Daví, no apogeu do seu reinado, certamente considerando a vanglória dos números (1 Crônicas 21.1-8).

Não podemos construir torres que simbolizam ou expressam a confiança no poder do homem sem romper com os propósitos e mandatos de Deus. Para ajuntar o maior número possível de pessoas, ou para entrar nas grandes correntes das multidões, precisamos abandonar os absolutos e relativizar as verdades que encontramos nas Escrituras Sagradas. Porém, não foi para isto que Deus nos criou e nos salvou.

Para preservar suas multidões alcançadas ao preço da infidelidade à Palavra de Deus, e atrair outras, o atual Papa da Igreja Católica Romana tem acenado a uma nova ética sexual; e, recentemente, ele declarou que a teoria de evolução é compatível com o relato bíblico da Criação. O mesmo já vem acontecendo em seguimentos do Protestantismo.

Hoje, a predominante forma de evangelismo dos chamados Evangélicos nada mais é que a proposta de, com Jesus, trazer ao ser humano as suas grandes aspirações como amor, paz e relacionamento entre outras justas aspirações do homem (isto, entre os mais idealistas) ou cura e prosperidade (entre os mais pragmáticos). Tal forma de evangelismo é caracterizada por minimizar a gravidade do pecado, e ignorar que este é a causa da separação ou inimizade entre Deus e o homem. Esta justa inimizade é irreconciliável, exceto pela cruz de Cristo Jesus; o que este predominante estilo de evangelismo torna em um detalhe sem grande importância (1 Coríntios 1.17-18; Efésios 2.13-18; Filipenses 3.18). Certamente, um Jesus sem cruz é mais atraente ao homem arrogante, que não reconhece o pecado e sua gravidade; porém, este com certeza não é o Jesus das Escrituras, por quem elas existem (João 5.39).

Uma recente pesquisa feita nos Estados Unidos revela os resultados de um evangelismo que evita certas verdades bíblicas que são consideradas ofensivas à mentalidade contemporânea (Ligonier Ministries, LifeWay Research and TheStateOfTheology.com:
§   Somente 51% do s Evangélicos acreditam que até o menor pecado merece condenação (da parte de Deus);
§   Dos Evangélicos 44% acreditam que, embora cometa pecados, a maioria das pessoas é boa por natureza;
§   Dos Evangélicos, 68% acreditam que é do homem a iniciativa para a reconciliação com Deus;
§   Dos Evangélicos 54% acreditam que o homem, com as suas obras contribui para a sua salvação.

Que crescimento de igreja é este? Que exército de Deus é este, em que os seus indisciplinados soldados precisam não precisam dominar seus desejos impróprios? Que multidão de “crentes” é esta que não crê na Palavra de Deus? Que cristãos são estes, que não conhecem a Jesus Cristo?

Deus criou o homem e a mulher, abençoou-os, e lhes ordenou “sede fecundos, multiplicai-vos e enchei a terra” (Gênesis 1.28).  Após salvar do Dilúvio a geração de Noé, Deus também ordenou: “sede fecundos e multiplicai-vos, povoai a terra e multiplicai-vos nela” (Gênesis 9.7). À Igreja iniciada em Jerusalém, Jesus também ordenou avançar, crescer entre as nações (Mateus 28.18-20; Marcos 16.15; Lucas 24.46-47). Entretanto, o crescimento que Deus ordena, aprova e sustenta é somente aquele que acontece associado à confiança, fidelidade serviço e glória a Deus.  Quando o homem pecou originalmente, a bênção foi substituída pela maldição (Gênesis 3.17). Quando os resgatados do Dilúvio passaram a buscar a própria glória, construindo a Torre de Babel, Deus desfez a sua união, dispersou-os pela Terra, e confundiu sua linguagem (Gênesis 11.8-9).

Como a igreja iniciante em Jerusalém, após haver recebido o prometido grande “derramamento do Espírito Santo, se sentia confortável em seus “quase cinco mil” membros (no mínimo), e se demorava em sair para anunciar Jesus Cristo em toda a “Judéia, Samaria, e até aos confins da terra” (Atos 1.8) (inclusive os seus milhares de membros que nem eram originalmente moradores de Jerusalém); a providência de Deus empregou uma grande perseguição, iniciada após o martírio de Estevão, para dispersar a grande igreja em Jerusalém, que começou a pregar “nas regiões da Judéia e Samaria” (Atos 8.1-8).

O poder da igreja não depende do número de seus membros, nem de sua arrecadação financeira ou de seu patrimônio material. O poder da Igreja está no fato de ser ela habitação (casa) de Deus, o Espírito Santo (1 Coríntios 3.16). Para que uma igreja continue sendo habitação de Deus, ela deve ser arrumada conforme a vontade soberana de Deus, para a glória e satisfação de Deus (2 Timóteo 3.14-16), não conforme nossos sonhos de grandeza, fama e poder.

Fomos chamados para ingressar e tomar parte na construção da Igreja de Deus, não para construir Torres de Babel (confusão, em vitude da desaprovação de Deus). Apesar do grande movimento de apostasia de nosso tempo, precisamos preservar o conteúdo bíblico do Evangelismo, e as razões e princípios bíblicos para a edificação da Igreja.

Quando evitamos algumas verdades bíblicas para facilitar a agregação de membros, deixamos de construir a Igreja de Cristo para edificar uma Torre de Babel; assim como a original Torre de Babel recebeu o juízo de Deus, assim têem sido julgadas as suas réplicas. Israel e Judá tiverem suas torres de Babel julgadas. Nestes dois mil anos de história da Igrejas outras torres de Babel também têm sido contruídas pelos homens e desprezadas por Deus. A Reforma do século XVI foi um grande juízo de Deus contra a torre de Babel do Catolicismo Romano.

Hoje, além do Catolicismo Romano, também existem torres de Babel Protestantes; e elas estão se multiplicando rapidamente.  Por isso, conclamamos os filhos de Deus  a voltarmos ao “primeiro amor” (Apocalipse 2.4), o amor a Deus “... de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento” (Mateus 22.37). Isto é voltar ao encantamento com a glória de Deus, sumamente revelada em Cristo Jesus (2 Coríntios 4.1-6). Este é o Cristo das Escrituras (João 5.39), não a caricatura de um cristo “reconstruído” para agradar aos pecadores arrogantes e impenitentes, com os quais queremos encher ou manter nossas igrejas grandes.

“Tenho ouvido, ó Senhor, as tuas declarações, e me sinto alarmado; aviva a tua obra, ó Senhor, e, no decurso dos anos, faze-a conhecida; na tua ira, lembra-te da misericórdia." (Hacuque 3.2)