Sola Scriptura, Sola Gratia, Sola Fide, Solus Christus, Soli Deo Gloria

Friday, 5 April 2019

O Culto a Deus II


Em artigo intitulado “Criados e Redimidos para o Culto a Deus” vimos que o culto (consagração e adoração) a Deus é o mais característico aspecto da relação do homem com Deus. Deus é digno deste culto; e o homem, além de poder encontrar nele o maior prazer e satisfação de sua vida, precisa dele; isto é, o homem precisa cultuar a Deus para recuperar, manter e desenvolver-se como ser criado à imagem e semelhança de Deus.

Também indicamos, naquele artigo, que a Igreja pode ser vista como “uma comunhão de pessoas caracterizada por um centralizador relacionamento com Deus; relacionamento este que se manifesta especialmente através da comunhão, dedicação, serviço e adoração a Deus, enfim, no culto a Deus”. Seja em seu aspecto universal ou seja em seu aspecto limitado a uma congregação (igreja) local, a Igreja é uma comunidade adoradora do único e verdadeiro Deus.

Ainda, no artigo mencionado acima, enfatizamos que é em Jesus Cristo que o propósito do relacionamento entre Deus e o homem se realiza; pois, é em Jesus Cristo que o relacionamento quebrado (por causa do pecado do homem) é restaurado; e, homens e mulheres de todas as nações tornam-se uma grandiosa e universal família de Deus (Efésios 2.11-22) - família de cultuadores a Deus.

Portanto, a Igreja, como resultado desta obra redentiva de Jesus, é principalmente uma comunhão ou comunidade de relacionamento ou culto a Deus.

Entretanto, a vida e morte de Jesus Cristo, além de reconciliarem com Deus os pecadores que se arrependem e creem, constituem-se no mais perfeito exemplo de como a Igreja cultua a Deus - oferecendo-se completamente a Deus, na vida, até a morte, como fez Jesus de modo absolutamente perfeito.

A Carta de Paulo aos Romanos, na seção que compreende os capítulos 12-15, trata da vida diária e prática dos crentes, da vida comum, do dia-a-dia da igreja. Esta seção começa com a seguinte exortação: Rogo-vos, pois irmãos... que apresenteis o vosso corpo em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional.” (Romanos 12.1).

Neste versículo, Paulo usa a ideia do antigo e simbólico (e ultrapassado) culto a Deus na forma do oferecimento, dedicação ou sacrifício de um animal. O primeiro destes sacrifícios oferecidos pelo homem foi feito por Abel (filho de Adão) e caracterizado como uma oferta “das primícias do seu rebanho” (Gênesis 4.4). Esta forma de culto também foi realizada pelo patriarca da humanidade, Noé (Gênesis 8.20-21); e por Abraão, patriarca de Israel (Gênesis 15).

A nação de Israel, ainda no Egito, mas prestes a deixá-lo, também cultuou a Deus por meio do sacrifício de cordeiros (Êxodo 12). A observância deste dia tornou-se uma prática anual, chamada Páscoa.

Israel ainda peregrinava no deserto, quando Deus ordenou que fosse feito um tabernáculo, como símbolo de sua habitação entre o povo de Israel (Êxodo 25.8). O Tabernáculo ficava em lugar central, entre as tribos de Israel; ali era o lugar onde as famílias de Israel deveriam oferecer seus sacrifícios a Deus. Isto também significava a centralidade da relação com Deus e do culto na vida da nação de Israel.

Esses sacrifícios, implicavam principalmente na morte do animal e sua consumação completa. Na oferta que era chamada “holocausto”, a oferta era totalmente queimada no altar. Em outras ofertas, além da parte queimada em um altar, tanto os sacerdotes como os ofertantes comiam parte da oferta.

Esses sacrifícios, acima de tudo, significavam o culto ou oferta perfeita de Jesus, em todo o seu estado de servo humilde, tanto na vida (após seu nascimento ou encarnação) quanto na morte. Esta oferta de Jesus, a única que honrou e agradou plenamente a Deus, é também creditada por Deus em favor dos pecadores arrependidos que creem nele; e assim, Deus os justifica, reconciliando-os consigo mesmo (Hebreus 7.22-28).

Por consequência e razão óbvia (a unidade entre Jesus e os que nele creem), os mesmos sacrifícios também significavam a oferta (culto) que esses pecadores (então justificados pela fé) faziam (no passado) e fazem (hoje) de si mesmos a Deus, seguindo a oferta perfeita de Jesus (1 Pedro 2.1-8).

A nação de Israel, no passado, tipificava a Igreja de todas as nações, hoje. Assim como, conforme o significado dos sacrifícios, Israel deveria ser uma “nação santa” (Êxodo 19.5-6); a Igreja, composta de diversas nacionalidades, é “raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus...” (1 Pedro 2.9).

Considerando que, mais do que meramente apresentar ou simbolizar um culto, devemos ser um culto, um “sacrifício vivo, santo e agradável a Deus” (Romanos 12.1); precisamos corrigir certas falsas ideias relacionados ao culto:

1. A falsa ideia de que cultuamos a Deus direta e isoladamente - Somente cultuamos a Deus por meio de Jesus Cristo, e, consequentemente unidos a todos os também por meio dele cultuam a Deus. Se não cultuamos a Deus separados de Jesus Cristo, também não cultuamos a Deus separados da Igreja de Cristo. O sangue de Cristo, que faz andar na luz, de modo que nossa vida seja um culto agradável a Deus, também nos faz viver em comunhão com outros, irmãos (1 João 1.7).

2. A falsa ideia de que cultuamos a Deus somente em determinados momentos - Nossa vida inteira deve passar-se no “altar” da consagração a Deus. Em todo tempo, tudo o que pensamos, falamos ou fazemos, devemos fazer “tudo para a glória de Deus” (1 Coríntios 10.31; Colossenses 3.17). Isto é possível; porque, se pecarmos, “o sangue de Jesus... nos purifica de todo pecado” (1 João 1.7-9).

3. A falsa ideia de que cultuamos a Deus com coisas que lhe ofertamos - As coisas que ofertamos somente têm valor se elas realmente significam e expressam que nossas próprias vidas são completamente consagradas a Deus. Assim foi a oferta de uma pobre viúva para a qual Jesus dirigiu a atenção de seus discípulos, uma pequena oferta que realmente significava sua completa confiança e total consagração a Deus (Lucas 21.1-4).

Tuesday, 26 February 2019

Criação, Casamento e Relacionamento com Deus


Se você ainda não se casou, ou está casado há poucos meses ou anos, se já está casado há alguns anos e já tem filhos, ou mesmo você que esteja casado há muitos anos, tendo ou não netos, leia Gênesis 2 (na Bíblia), e considere isto seriamente:
  • Deus criou o homem para lhe dar a vida eterna, isto é para dar ao homem um íntimo e profundo conhecimento de Deus, de modo que a comunhão e relacionamento do homem com Deus se tornassem eternos, inquebráveis, imortais (Gênesis 2.8-9).
  • Deus criou o homem para ignorar o mal, e somente conhecer e praticar o bem (Gênesis 2.15-17).
Considere também que Deus criou o homem com aptidão e habilidade para ser uma “unidade dual”, constituída de um homem e uma mulher (Gêneses 2.18, 21-24).
Geralmente admitimos que melhor é serem dois para as mais diversas situações da vida como no trabalho, no caso de um acidente, no frio e quaisquer adversidades (Eclesiastes 4.9-12).

Contudo, considere isto: a primeira grande finalidade, importância, e responsabilidade do homem e da mulher no casamento é a mútua ajuda para:
  • O estímulo e a busca do conhecimento de Deus que gera e sustenta a vida eterna, a eterna comunhão com Deus.
  • A exclusiva busca do conhecimento e prática do bem (boas obras).
Se você ainda não se casou, peça a Deus, e esteja determinado(a) a encontrar uma companheira ou companheiro que vá encorajá-lo(a) e ajudá-lo(a) na busca do conhecimento, comunhão, confiança, submissão a Deus.

Se você já está casado(a), não importa há quantos anos, e está convencido de que seu cônjuge não o estimula e ajuda na busca do conhecimento e comunhão com Deus, nem pense em separar-se dela(e); ao contrário, faça dela(e) o seu primeiro objetivo de oração, testemunho de Jesus Cristo (em atitude e palavra).

Estimule e compartilhe o conhecimento de Jesus Cristo com o seu cônjuge; pois é precisamente o conhecimento de Jesus Cristo que nos dá a vida eterna, que nos coloca em comunhão com Deus, e nos torna filhos de Deus (João 1.1-14; 17.3).

Comer o fruto da árvore da vida significava obter um nível ou qualidade de conhecimento e comunhão com Deus que nos confere a vida eterna. Esta árvore e seu fruto simbolizam o Verbo, o Eterno e Unigenito Filho de Deus, Jesus Cristo (João 1.1-4).

Como nos tornamos pecadores, e o salário do pecado é a morte (Romanos 6.23), não podíamos mais obter aquele nível ou qualidade de conhecimento e comunhão com Deus que nos confere a vida eterna, sem que o Verbo se fizesse carne (João 1.14), e se tornasse o “Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (João 1.29).

Após o homem haver pecado o conhecimento de Deus que dá ao homem a vida eterna tem um elemento a mais - a morte do Filho de Deus pelos pecadores. Assim, o conhecimento de Deus que nos dá a vida eterna inclui o conhecimento da encarnação do Verbo (o Filho), sua morte (e ressurreição).

A obtenção do conhecimento de Deus, da admissão à inquebrável comunhão com Deus e do recebimento da vida eterna já não são mais simplesmente simbolizados pelo ato de comer diretamente o fruto de uma árvore, mas pelo comer o pão e beber o vinho (Mateus 26.26-28; João 6.32-33, 35, 38-40, 47-51, 53-57). Pois, comer o pão (o trigo moído) e beber o vinho (a uva esmagada) simboliza o reconhecimento de que Jesu Cristo morreu pelo nossos pecados.

A vida eterna não era um direito, nem tão pouco um atributo da criação do homem, mas um dom de Deus. O pecado tornou impossível a recepção deste desejável dom. Porém, “Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigenito, par que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (João 3.16).

Você tem esse conhecimento de Deus? Ou seja o conhecimento de Jesus Cristo, quem Ele é, e o que Ele fez e faz por você?

O conhecimento de que Deus existe e de que Jesus foi um bom homem, ou um grande profeta, não fazem muita diferença.

Entretanto, o conhecimento de que Deus dá a vida eterna por meio de Jesus Cristo, este sim, faz total diferença. Este é o conhecimento de Deus que o coloca em uma inquebrável comunhão e relacionamento com Deus, que lhe dá a vida eterna.

Seu cônjuge já tem este conhecimento de Deus? Se não, com sua atitude estimule-o a buscar, e com suas palavras compartilhe este conhecimento.

Se você e seu cônjuge já têm o conhecimento de Jesus Cristo, estimulem e ajudem seus filhos à busca do mesmo.

Então, viva de modo que estimule e comunique verbalmente a outros (em sua vizinhança, cidade, nação, e além) o conhecimento de Jesus Cristo, nosso grande Salvador e Senhor.


Se você tem alguma pergunta quanto ao que leu, ou deseja avançar no conhecimento de Deus, teremos grande satisfação em ajudar.

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Saturday, 12 January 2019

Viver com e para a Glória de Deus - Nossa Razão para Viver


Deveríamos oferecer nossas vidas completamente a Deus, o Criador, como gratidão por nos haver criado, e chamado cada um de nós à existência. Nossa vida deveria ser inteira ou continuamente um culto a Deus. Neste culto, enquanto tributamos a Deus a honra e glória que lhe são devidas, deveríamos desfrutar nosso maior prazer e satisfação.

Porém, por causa dos nossos pecados, não somos uma oferta agradável a Deus, nem apreciamos devidamente Deus e sua companhia. Nem ao menos merecemos viver; por isso, morremos (Romanos 3.23; 6.23).

Entretanto, Deus nos deu um grande salvador, seu Filho Eterno. Para isto, Ele (o Filho) se encarnou (João 1.1-13), isto é, assumiu a natureza humana mortal (Filipenses 2.5-11). O seu nome é Jesus, que significa Salvador (Mateus 1.21).

Nesta condição assumida, de um homem servo humilde, Jesus ofereceu-se de modo completo e perfeito a Deus. Viveu de modo agradável a Deus, e jamais pecou (Mateus 17.5; 1 Pedro 21-22). Em toda a sua vida como um servo humilde (desde seu nascimento até sua morte), Jesus cultuou (honrou e agradou) perfeitamente a Deus.

Além disso, para cumprir o propósito de Deus quanto a salvação de pecadores, Jesus ofereceu sua vida a Deus, o Juiz Supremo. Jesus ofereceu sua vida na cruz, morrendo, não por seus pecados, pois não os tinha. Ele morreu pelos pecados de todos os haverão de ser salvos (Romanos 5.6-8), para viver com e para a glória de Deus.

Em Jesus, Deus começa uma nova humanidade, não descartando a humanidade pecadora, mas redimindo-a. Isto é o Evangelho, a “boa notícia”, mensagem de Deus à humanidade.

É simples assim, aos que creem, Deus lhes atribui (credita, transfere, concede) os méritos de Jesus Cristo.

Aos pecadores arrependidos, como o Juiz Supremo, Deus atribui o perfeito sacrifício de Jesus Cristo na cruz, sua morte; assim, todos os seus débitos com a Justiça Divina são quitados (1 Coríntios 1.30-31; Colossenses 2.13-14).

Aos que creem, mesmo sendo pecadores, incapazes agradar a Deus, como o Criador, Deus lhes atribui a vida perfeita de Jesus, o Servo humilde, como o culto ou consagração da própria vida que cada ser humano deve a Deus, em gratidão por seu chamado à existência.

Os que creem em Jesus, Deus os vê unidos a Jesus. Por isto:

1. Unidos a Jesus em sua morte e ressurreição; os que creem em Jesus estão livres condenação e domínio do pecado (João 5.24; 8.34-36), são novas criaturas que viverão eternamente, com e para a glória de Deus (Romanos 6.1-11; 2 Coríntios 5.14-17).

2. Unidos como uma família em que Deus é o Pai; Jesus é o Filho; e os que creem em Jesus são também chamados “filhos de Deus” (João 1.11-12; 1 João 3.1).
3. Unidos a Jesus como o Príncipe e Herdeiro da Criação, os que creem em Jesus são seus seus co-herdeiros de uma nova e gloriosa era (Romanos 8.12-17).

O “mundo” não vai acabar. Ele será transformado, pelo infinito poder Deus que o criou e pelo poder redentivo de Jesus que o salvou.

Somente encontraremos plena razão, satisfação e alegria vivendo para a glória de Deus; mas isto somente é possível pela intermediação de Jesus, também chamado Emanuel, que significa “Deus conosco” (Mateus 1.21-23). Creia nele.

Friday, 28 December 2018

Criados e Redimidos para o Culto a Deus

Culto é algo natural ou essencial à relação entre a criatura e o seu Criador, entre o homem e Deus. Tão (ou mais) pertinente quanto a honra aos pais pelos filhos; assim é o culto a Deus. O nosso culto é algo que a Deus é devido; e, quando lho tributamos, somos os maiores beneficiários. Porém, se nos recusamos a cultuar a Deus, negamos a nós mesmos a maior satisfação e prazer que ao ser humano é possível conhecer.


Podemos dizer que a Igreja é uma comunhão de pessoas, caracterizada por um centralizador relacionamento com Deus; relacionamento este que se manifesta especialmente através da comunhão, dedicação, serviço e adoração a Deus, enfim, no culto a Deus.


Neste relacionamento, Deus fala à igreja; e a igreja responde, ou corresponde (em palavra e ou atitude); e isto é a essência do culto a Deus. Daí a importância da Palavra de Deus, pois o Deus invisível fala, inicia e mantém o relacionamento com o ser humano.


Através do tempo, parte desta comunicação verbal de Deus com a humanidade tomou uma forma estável e autoritativa, a forma escrita. Esta forma escrita da Palavra de Deus também ficou conhecida como a Escritura Sagrada. Através da Escritura Sagrada, quando lida e fielmente pregada, Deus continua falando com os homens, que respondem em oração.


A oração, portanto, não simplesmente brota do nosso coração, exceto quando a Palavra de Deus for ali semeada. A oração não é mera expressão dos nossos desejos, mas a santificação destes, o oferecimento dos nossos desejos que agradam e honram a Deus. A oração, conforme o Catecismo Maior da Confissão de Fé de Westminster, pergunta 178, é “um oferecimento (consagração) dos nossos desejos a Deus, em nome de Cristo...”.


O resultado desejável da comunicação ou diálogo entre Deus e o homem é o estabelecimento e manutenção do culto, o santo oferecimento ou total consagração de nossas vidas a Deus.
O assunto dominante da Escritura Sagrada (ou Escrituras Sagradas) o seu grande tema é o relacionamento do homem com Deus, ou seja como o homem glorifica, e é plenamente satisfeito em Deus; e isto é o culto a Deus.


Embora as Escrituras Sagradas comecem com o relato da Criação, e a ela façam frequentes referências, não é da perspectiva da Criação que as Escrituras tratam o tema do relacionamento do homem com Deus, mas principalmente da perspectiva da Redenção.


Ao afirmarem que o homem e a mulher foram feitos à “imagem e semelhança de Deus” (Gênesis 1.27); as Escrituras Sagradas revelam que o homem foi criado para viver em comunhão ou relacionamento com Deus.


Como a criatura poderia se relacionar com o incompreensível e invisível Criador, eterno e todo-poderoso? Contudo, Deus se manifestava e falava regularmente com o homem (Gênesis 1.28,29; 2.16-17).


Entre outras coisas, Deus revelou ao homem que o relacionamento que tinham poderia ser quebrado, preservado ou garantido eternamente (Gênesis 2.16-17). Aquele relacionamento em que Deus é glorificado e o homem é plenamente satisfeito poderia ser:
  • Quebrado, mediante o ingresso do homem em uma área de conhecimento que então lhe fora proibida por Deus, o “conhecimento do bem e do mal”.
  • Preservado, enquanto o homem não se tornasse “conhecedor do bem e do mal”; isto é se o homem não abandonasse o estado de retidão e santidade em que fora criado por Deus, ou não se tornasse um pecador, transgressor da justiça (Eclesiastes 7.29; 1 João 3.4).
  • Garantido eternamente, se o homem homem escolhesse a vida, a vida eterna, o conhecimento de Deus (João 17.3).
Quem falava com o homem no Paraíso? Creio que era propriamente o Eterno Filho de Deus, o “unigênito do Pai” (João 1.14) quem falava como o homem no Paraíso; pois Ele é o Verbo, a vida e a luz (João 1.1-1-4), quem tem o poder de transformar os homens (e mulheres) mortais em filhos de Deus (João 1.9-12), que têm a vida eterna, e enfim ressuscitarão (João 5.24; 6.46-51,54).


Este mistério parcial e inicialmente introduzido pela Palavra de Deus, antes da possível e efetiva quebra do relacionamento do homem com Deus (a Queda), é gradualmente revelado em todo o processo seguinte da revelação redentiva, e finalizado quando as Escrituras  Sagradas ficaram completas.


A revelação redentiva visa a restauração da comunhão (relacionamento) do homem com Deus. Como já mencionado, a perspectiva da qual as Escrituras tratam do relacionamento do homem com Deus é a perspectiva da redenção. Portanto o objetivo do conjunto das Escrituras Sagradas é tratar da restauração do relacionamento do homem com Deus, e ao nível de um relacionamento inquebrável, eterno.


Conforme as Escrituras Sagradas, é somente em Jesus Cristo, o “Deus unigênito” (João 1.18), que Deus e o homem se encontram (João 1.14-18). O nome “Jesus” lhe foi dado porque é Ele que nos salva (da condenação) dos nossos pecados (Mateus 1.21), mas era também chamado “Emanuel” que significa “Deus conosco” (Mateus 1.23).


Como já vimos, as diferenças essenciais entre o Criador e a criatura (humana) não foram impedimentos à comunicação entre Deus e o homem. Entretanto, após a Queda ou ruptura do relacionamento do homem com Deus, havendo o homem se tornado um pecador (transgressor da justiça), é impossível que haja relacionamento entre Deus e o homem; pois Deus é Santo.


Entretanto, o Verbo, o Unigenito de Deus, se fez carne (João 1.14), isto é assumiu a natureza humana, para reconciliar o homem (agora um pecador) com Deus, e reestabelecer o relacionamento do homem com Deus, conforme o desígnio da Criação.


A vida absolutamente justa de Jesus e seu sacrifício (morte) são aceitos por Deus, em favor e benefício dos pecadores (Romanos 4.23-5.1; 1 Coríntios 1.22-31); ou seja, os que creem neste modo único como Deus justifica pecadores (Efésios 2.4-8). A morte de Jesus quita o débito dos pecadores em relação à justiça divina. A vida justa de Jesus é o crédito, impossível de ser adquirido por pecadores.


É também somente por esta mesma via que nossa oferta (culto) torna-se agradável a Deus, acompanhando a oferta perfeita de Jesus Cristo, em sua vida, e em sua morte (1 Pedro 2.4-5).


Em seu Unigênito, Jesus Cristo, Deus, fez mais do que simplesmente se revelar; Ele se deu ao homem redentiva ou salvadoramente. É também em Jesus Cristo (seu méritos intercessórios) que o homem se oferece, entrega ou consagra-se a Deus. É somente em Jesus Cristo que Deus e homem se encontram, e firmam um eterno relacionamento, em que Deus é glorificado, e o homem é plenamente satisfeito.


Adão (o homem) falhou em preservar o alvo para o qual fora criado, glorificar e satisfazer-se em Deus, para sempre (Catecismo Maior da Confissão de Fé de Westminster, pergunta 1). Jesus Cristo não falhou, foi o perfeito culto a Deus, tanto em sua vida quanto em sua morte. Assim, os que se unem a Jesus, mediante a fé, encontram-se com Deus, entram em um permanente relacionamento com Ele, passando a glorificar e a ter plena satisfação em Deus, para sempre. E este é culto a Deus, para o qual fomos originalmente criados, e agora redimidos.

Wednesday, 31 January 2018

Jerusalém e a Igreja: Alguma Relação?


Damos muito pouca atenção ao fato de que a obra da Redenção começou muito tempo antes do nascimento do Redentor prometido, Jesus Cristo, e muito tempo antes do surgimento da nação de Israel.

Pouco consideramos sobre o fato de que a Igreja, a comunhão dos pecadores que foram redimidos, reconciliados com Deus, e com o próximo, já está presente na Terra muito antes do dia de Pentecostes, quando cumpriu-se a promessa do derramamento do Espírito Santo, e foi finalizada a transição da Igreja na Antiga Aliança para a Nova Aliança.

A Igreja já está presente na Terra muito antes de Deus chamar e fazer promessas a Abraão e sua descendência, antes de enviar Moisés e libertar a nação de Israel do cativeiro egípcio, levando-a à “terra prometida”.

Na verdade, a Igreja já existe na Terra desde que Deus iniciou a obra da Redenção, isto é, logo após o primeiro homem e suas gerações serem totalmente corrompidos pelo pecado. Desde Adão e seus primeiros descendentes, os benefícios da morte e ressurreição de Jesus Cristo, o Redentor, já eram desfrutados por pecadores que, arrependidos, criam e antendiam o chamado de Deus à reconciliação, o Evangelho já anunciado em sua forma mais primitiva (Gênesis 3.15; Gálatas 3.8).

Embora a presença, tamanho e influência da Igreja sejam seja extremamente variáveis na história, ela sempre esteve presente, onde quer que “dois ou três estivessem reunidos” (Mateus 18.15-20), em convicção e arrependimento de pecados, e fé em Deus como Criador e Redentor.

A cidade de Jerusalém é uma notável evidência desta remotíssima realidade e presença da Igreja, precedendo à Igreja de Israel (pertencente à Antiga Aliança) e, consequentemente, a Igreja universal da Nova Aliança. Antes da chegada de Abraão à terra de Canaã, portanto, antes do nascimento da nação de Israel, a cidade de Jerusalém já existia, e tinha como rei e sacerdote aquele que foi o maior tipo sacerdotal de Jesus Cristo, Melquisedeque, nome que significa “rei de justiça”. Naquele tempo o nome da cidade era simplesmente Salém, que significa “paz”.

Jerusalém, que significa “cidade da paz”, embora seja um lugar ou cidade histórica, presente até os nossos dias, é também o mais significativo símbolo da Igreja. Jerusalém é idealmente a cidade dos que foram reconciliados com Deus, a cidade onde Deus habita, em comunhão com aqueles a quem Ele perdoou, reconciliou e aproximou de si, e a esses todos, também reconciliou e aproximou, uns dos outros.

Jerusalém é o símbolo do Reino de Deus, não no âmbito daqueles sobre os quais Deus reina com mão (ou cetro) de ferro, mas em paz, comunhão e ordenando sua benção (Salmos 133), onde Jesus Cristo é o Sacerdote e Rei tipificado em Melquisedeque.

Jerusalém é símbolo de todo lugar em que em algum tempo houve, há ou ainda haverá um povo em comunhão com Deus, por menor ou maior que seja o número dos que formam esta comunhão. Jerusalém, a cidade da paz, ou seja, a Igreja, sempre existiu (desde o começo da obra da Redenção), jamais deixou de existir (embora algumas vezes tenha se tornado tão pequena, ao ponto de parecer completamente extinta), e jamais deixará de existir.

Um dos grandes assuntos do livro de Apocalipse, com o qual o livro aproxima-se de sua conclusão é o Novo Céu e Nova Terra, uma radical transformação do universo, da Criação, quase uma recriação (Apocalipse 21.1-22.5). Novo Céu e Nova Terra é o novo ambiente universal do Reino de Deus, e seu centro ou capital, “a cidade santa”, chama-se a “Nova Jerusalém” (Apocalipse 21.1-2). Uma cidade não é constituída apenas de suas casas, ruas e praças; ela é principalmente o centro de uma região onde habitam pessoas; a Nova Jerusalém é o centro da Terra recriada, onde Deus habitará eternamente com os homens (Apocalipse 21.3), onde o pecado e todas as suas consequências terão sido completamente eliminados (Apocalipse 21.4).

Além da Jerusalém histórica, e geograficamente localizada, desde os tempos de Melquisedeque e dos dias de Davi (ambos também tipos reais de Jesus Cristo), além da comunhão, congregação ou Igreja (tipificada na cidade de Jerusalém) sempre presente na Terra em diversos lugares, desde o início da obra da Redenção, as Escrituras Sagradas nos revelam que paralelamente à visível, embora instável Jerusalém na Terra (e especialmente a Igreja que ela tipifica, igualmente visível e instável), existe uma Jerusalém no Céu, inabalável, e que somente cresce, enquanto na Terra o tempo passa, e a Igreja sofre variações. A Jerusalém celestial é constituída e cresce à proporção em que morrem os habitantes da Jerusalém terrenal, isto é, os remidos no sangue do Cordeiro; esta porção da Igreja, agora invisível, descerá do Céu, para habitar o Novo Céu e Nova Terra (Apocalipse 7.9-17; 21.2)

Desde que o pecado entrou e passou fazer parte da natureza humana, Deus, o Criador, por sua essência justa e santa, não pode mais relacionar-se com a humanidade em geral. Depois que o homem tornou-se um pecador, Deus já não anda (vive ou habita) com os homens. Ele não tem prazer na comunhão com pecadores (Isaías 59.2).

Entretanto, desde que o homem tornou-se pecador, Deus também tem redimido pecadores, e com eles estabelecido uma inquebrável comunhão. Com estes, Deus anda ou vive na “cidade da paz”, a comunhão dos seus remidos (Isaías 57.15), onde quer que ela tenha sido estabelecida na Terra.

A antiga Salém não conservou o status dos tempos de Melquisedeque, nem a Jerusalém de Davi e Salomão; esta e os reinos dos quais fora capital (Israel e Judá) se corromperam. Jerusalém perdeu e recuperou algumas vezes seu status de cidade símbolo da justiça e paz. O mesmo tem acontecido na história da Igreja da Nova Aliança, após o grande momento de sua inauguração no dia de Pentecostes (que sucedeu a morte, ressurreição e ascensão de Jesus Cristo), a Igreja tem experimentado alto e baixos, reformas, avivamentos e até apostasia. Através da história, mediante a fiel pregação da Palavra de Deus, em diversos lugares, igrejas tem sido estabelecidas, e crescido; porém, sujeitas às tentações diversas, igrejas se enfraquecem, e podem até morrer.

Embora a Jerusalém da Terra (Igreja ou igrejas como instituições visíveis, mensuráveis), como já antecipado, seja instável; ela, como o lugar da habitação de Deus com os homens, é amada por Deus. O Antigo Testamento está repleto de demonstrações e declarações do amor de Deus por Jerusalém, e dos reinos dos quais fora capital: Israel e Judá (Isaías 43.1-4). Israel e Judá, como objetos do amor de Deus, representam somente uma pequena porção da Igreja de “todos os tempos e lugares”, a multidão inumerável “de todas nações, tribos, povos e línguas” (Apocalipse 7.9).

A preservação e prosperidade de Jerusalém (Igreja) na Terra, como “cidade” de justiça e paz, dependem da Palavra de Deus, que ela seja pregada, ouvida e posta em prática. É através da pregação da Palavra de Deus que a “cidade da paz” (a Igreja) recebe novos habitantes (homens e mulheres regenerados e justificados pela fé); é através da Palavra de Deus que os nascidos na cidade são regenerados e justificados pela fé (1 Pedro 1.23); e, assim todos são santificados, nutridos, e mantidos espiritualmente saudáveis e frutíferos (João 15.1-10).

Quando a Palavra de Deus deixa de ser pregada, ouvida, ou obedecida, a “cidade da paz” começa a ser perturbada. Seus habitantes começam a viver como se não fossem redimidos, como se Deus não habitasse no meio deles. Entre os seus habitantes, multiplica-se o número dos filhos que não são redimidos, e, de fora, também são recebidos habitantes não redimidos. Enfim, os habitantes de Jerusalém passam a viver como os habitantes de Sodoma, ou de Babilônia, cidades que se tornaram símbolos de confusão, imoralidade, injustiça, mentira, extorsão e violência, tudo que se opõe ao conceito de Jerusalém, “a cidade da paz” (Apocalipse 11.8; 14.8).

Isso tudo aconteceu com a Jerusalém, capital de Israel e Judá.  Havendo subestimado a Palavra de Deus, estando a cidade e seu reino em avançada apostasia, e dominados por falsos profetas e mestres, que exerciam seus ofícios por lucro (Jeremias 613-14; Ezequiel 34.1-4), por isso, “mercadejavam a Palavra de Deus” (2 Coríntios 2.15-17), mesmo assim, Deus enviou profetas, como Jeremias e Ezequiel.

Estes profetas foram enviados para chamar Jerusalém ao arrependimento. Entretanto, rejeitando definitivamente a Palavra de Deus, embora tenha sido extremamente doloroso para Deus, que ama Jerusalém; por fim, a “cidade da paz” recebeu o mesmo tratamento ou juízo de qualquer cidade ímpia (Lamentações 4.6,11).

Não podemos ignorar a profunda relação entre Jerusalém e a Igreja. Os fatos marcantes da história de Jerusalém ficaram registrados nas Escrituras Sagradas para instrução e advertência da Igreja, para que sejam evitados os erros e sofrimentos de Jerusalém (Israel e Judá).

A Igreja (ou as igrejas) da Nova Aliança não serão tratadas de modo diferente de Jerusalém. Deus ama a sua Igreja, e não admite seu flerte e sedução pelo pecado, ou qualquer forma de idolatria. As cartas “às igrejas que se encontram na Ásia” (Apocalipse 1.4) confirmam que:
§  O Senhor poderá remover “o candeeiro” da igreja que abandonar o seu “primeiro amor” (Apocalipse 2.1-7);
§  Contra os membros da igreja que se envolvem com doutrinas que permitem ou promovem idolatria e prostituicão, o Senhor pelejará com a “espada” de sua “boca” (Apocalipse 2.12-17), podendo agravar este juízo também com enfermidades, tribulações e morte (Apocalipse 2.18-29);
§  Contra a igreja morta, certamente pelo predomínio do pecado, mesmo que tenha aparência de viva, o Senhor poderá executar um juízo repentino e definitivo (Apocalipse 3.1-5);
§  Contra a igreja que pensa ser rica, abastada e auto-suficiente, mas é infeliz, miserável, pobre, cega e nua, o Senhor chama ao auto-exame, ao arrependimento e à comunhão consigo; pois ele a disciplina; porque a ama (Apocalipse 3.14-22).

Os juízos contra Jerusalém (Israel e Judá) somente foram finalmente executados porque a cidade desprezou a Palavra de Deus e não se arrependeu. Igualmente, os juízos contra a Igreja, ou igrejas, somente são executados caso não haja arrependimento, caso não ouçam o que “o que o Espírito diz às igrejas” (Apocalipse 2.5-7,11,16-7,29; 3.6,13,22); pois sempre que há verdadeiro arrependimento, segue-se reforma e avivamento.

Eventuais juízos de Deus contra sua amada Igreja jamais ameaçam a sobrevivência da Igreja, ao contrário, a garantem. Quando parte da Igreja subestima o ministério da Palavra de Deus, que envolve e requer a fiel pregação, a cuidadosa admissão à santa ceia e a disciplina de seus membros, Deus o faz diretamente, chamando e enviando fiéis pregadores, que em tal contexto são minoria; se estes não são ouvidos, então Deus começa a executar diretamente seus juízos.

Os juízos ou disciplina de Deus, quer venham pela repreensão mediante a fiel pregação da Palavra, quer venham por outra ação da própria Igreja, quer pela direta ação de Deus, sempre visam o arrependimento de todos, se não, a preservação de um resto fiel (Apocalipse 2.24-29; 3.4-6). Como a videira quando é podada, a Igreja, quando é limpada pela Palavra, mantém-se ou torna-se saudável, e frutifica (João 17.1-3).

Ao anunciar juízo sobre o reino de Jerusalém, Deus prometeu preservar um resto fiel, o “toco”, como de uma grande árvore derrubada, e fazer deste uma “santa semente”, para o renascimento da cidade e seu reino (Isaías 6.8-13). Da mesma forma, sempre, em qualquer tempo ou lugar, como prometido, e também já testemunhado pela história, se o Senhor vier em juízo contra parte de sua Igreja, por maior que seja esta, sempre deixará, no mínimo um “toco”, uma “santa semente”, que novamente crescerá e frutificará, para a glória de Deus, o todo-poderoso Redentor.

E, ainda que a Igreja na Terra seja relativamente pequena, quanto o Senhor Jesus Cristo voltar em glória, esta Jerusalém terrena se encontrará com a Jerusalém celeste; e, como uma multidão inumerável reinará eternamente em “Novo Céu e Nova Terra”, sob “o trono de Deus e do Cordeiro” (Apocalipse 22.1-5). Aleluia!


Wednesday, 27 December 2017

Qual é o Nosso Pecado?

Esta é a pergunta que Deus, de antemão, disse a Jeremias que o povo de Judá faria ao profeta (Jeremias 16.10). A pergunta haveria de surgir no contexto da pregação do profeta Jeremias, chamando a nação de Judá ao arrependimento, em face do juízo de Deus que estava para vir sobre a nação; ou seja, o ataque, destruição, exílio e cativeiro de Judá, sob o poder do Império Babilônico.

Desde a separação do Reino de Israel em dois reinos, Israel e Judá, ambos iniciaram uma trajetória de decadência. Com o rompimento de Israel na Aliança com Deus, aliança feita por meio do patriarca Abraão, e ratificada pela mediação do profeta Moisés e do rei Davi, Israel rapidamente se apostatou. O rompimento com a Aliança nos termos mediados por Moisés e Davi foi imediato e declarado. O rei de Israel, Jeroboão, não era da descendência de Davi; e, temendo um possível retorno e união de Israel com Judá, Jeroboão, reintroduziu a ideia de culto a Deus por meio da imagem do “bezerro de ouro”, promoveu outras formas de idolatria, além de estabelecer sacerdotes que não eram da tribo de Levi (1 Reis 12.25-31), tudo isso, em desprezo à Aliança ratificada com a nação de Israel por meio de Moisés.

Apesar de ter reintroduzida e estimulada pelo próprio rei Salomão que, em sua velhice, praticou e promoveu idolatria (1 Reis 11.1-8), a apostasia de Judá foi mais lenta e sutil. Ao contrário de Israel, Judá manteve a sucessão real da descendência de Davi, o culto centralizado no Templo edificado em Jerusalém, e o ministério sacerdotal na tribo de Levi, conforme a Lei de Deus para Israel, comunicada por meio de Moisés.

O Reino de Israel caiu (e jamais se ergueu novamente) sob a invasão e domínio do Império Assírio (726 aC). Era em face da pregação de Jeremias, chamando Judá ao arrependimento e advertindo sobre a iminência do juízo de Deus, semelhante ao que veio sobre IsraeI, que Judá perguntava:

“Por que nos ameaça o Senhor com todo este grande mal? Qual é a nossa iniquidade, qual é o nosso pecado, que cometemos contra o Senhor nosso Deus?” (Jeremias 16.17)

A aparente melhor situação de Judá, desde a separação de Israel, não foi suficiente para conter o processo de apostasia, que era alarmante nos dias do profeta Jeremias, ao ponto do povo perguntar: qual é o nosso pecado?

De modo diferente de Israel, Judá não havia formal e declaradamente rompido com Deus. Algumas ordenanças de Deus foram preservadas, como as já citadas sucessão davidica no trono real de Judá, a preservação do culto no Templo (conforme as determinações gerais de Moisés e Davi) e a exclusividade sacerdotal da tribo levítica.

Não houve um rompimento formal e declarado de Judá contra a Palavra de Deus, em sua forma escrita, também chamada Lei. Além de presidir o culto, os sacerdotes levitas mantinham a incumbência de ensinar a Lei ao povo.

Judá até experimentou algumas reformas, como nos dias dos reis Ezequias e Josias (este também contemporâneo do próprio profeta Jeremias). Entretanto, Judá persistiu na rota da apostasia, e apostasia tal que, em resposta à pregação de Jeremias, a nação levianamente perguntava: “Por que nos ameaça o Senhor com todo este mal?…qual é o nosso pecado...?

Já temos usado a palavra apostasia diversas vezes, seu significado comum em português é “afastamento ou abandono da fé”. Entretanto, o seu significado original, no grego, especialmente no Novo Testamento grego é muito útil; seu signicado é “abandono”, “rebelião”. Uma variação da palavra significa “separação” ou “divórcio” (Mateus 5.31; 19.7).

O apóstolo Paulo escreveu a Timóteo: “...nos últimos tempos, muitos se apostatarão da fé, por obedecerem a espíritos enganadores e a ensinos de demônios” (1 Timóteo 4.1). Portanto, apostasia significa afastamento, abandono da fé, e separação de Deus.

Deus chamou e enviou o profeta Jeremias para anunciar o pesado juízo que estava para cair sobre a nação de Judá (a ser executado pelo Império Babilônico); a causa do juízo foi declarada: “...por causa de toda a malícia deles; pois me deixaram a mim, e queimaram incenso a deuses estranhos...” (Jeremias 1.16).

Conforme o livro do profeta Jeremias, duas principais forças contribuíram para levar Judá à apostasia ou separação de Deus: o poder sedutor do pecado e o estímulo da falsa profecia.

Pelo poder sedutor pelo pecado, Judá abandonou a Deus. O pecado é a única causa de nossa separação de Deus. Não obstante a sua invisibilidade, Deus nos criou para nos relacionarmos com Ele; embora esta seja uma relação de servo e seu Senhor, súdito e seu Rei, esta é também uma relação entre o filho e seu Pai.

Em se tratando de relacionamento, o conceito de Aliança é muito importante; pois, entre dois seres pessoais, ou há uma aliança ou não há relacionamento. Por esta razão, após a criação do homem, Deus faz com ele (e sua descendência) uma aliança – a Aliança da Criação; e, após a quebra da Aliança e relacionamento (da parte do homem), para restaurar o relacionamento Deus faz a Aliança da Redenção.

Os Dez Mandamentos (Êxodo 20.1-19), anunciados por meio de Moisés, em uma posterior revelação da Aliança da Redenção, são parte essencial da Lei que deveria nortear o relacionamento da nação de Israel com Deus. Estes Dez Mandamentos, que são próprio coração da Lei, se resumem no dever natural de amarmos a Deus e ao próximo (Mateus 22.36-40), e revelam os princípios básicos desta nossa singular relação com Deus:
  • Os quatro primeiros mandamentos indicam como servimos e adoramos a Deus diretamente;
  • Os seis últimos mandamentos indicam como adoramos e servimos a Deus na relação com o próximo (os outros servos, súditos e filhos de Deus, como nós também somos).

Deus se revelou a Israel e Judá como o seu único Deus, o seu Criador, Provedor e Redentor. Portanto, Deus não pode ser honrado entre outros (falsos) deuses, e não pode ser reduzido a uma (ou qualquer que seja) imagem da criação; o seu nome é o “Senhor”, e sua Lei não pode ser quebrada, sem que haja quebra da relação e Aliança com Deus.

Não é possível separar verdadeiro culto (ao verdadeiro Deus) da obediência à Lei de Deus (lei que revela princípios básicos do nosso relacionamento com Deus). Da mesma forma não é possível separar idolatria de desobediência à Lei de Deus. A deliberada desobediência à Lei de Deus é uma negação de Deus, o que é também idolatria; pois a negação de Deus cria um vácuo que certamente será ocupado por algum ídolo (falso deus).

Não podemos servir a Deus diretamente (cultuá-lo), ignorando os quatro primeiros princípios (mandamentos); nem podemos servir a Deus indiretamente, sem cumprir os seis últimos, que norteam nosso relacionamento com o próximo. E ainda que observássemos rigorosamente os quatro primeiros mandamentos, descumprindo somente um dos seis últimos, não cultuaríamos a Deus fiel e verdadeiramente; pois estaríamos em falta com outros servos, súditos e filhos de Deus.

Quem, de forma deliberada e contumaz, sem arrependimento desobedece a Lei de Deus (ou qualquer um dos Dez Mandamentos) cultua, serve, agrada, ou oferece sacrifício a falsos deuses, mesmo que insista em referir-se a Deus, como fazia o povo de Judá, dizendo, o “Senhor, nosso Deus” (Jeremias 16.17). Afinal, cada transgressão da Lei de Deus é uma oferta agradável a um falso deus, por mais oculto que ele pareça.

Não são “adoradores de Baal” somente os que declaradamente cultuam a Baal, mas também aqueles dizem que cultuam ao Senhor, mas apresentam ou oferecem ao Senhor o que agrada a Baal, embora o Senhor odeie tal oferta.

Baal ou qualquer outro deus, enfim, Satanás dissimuladamente aceita qualquer oferta (embora deseje, de fato e ao final, nossa própria vida e gerações). Deus, ao contrário, não aceita ser adorado entre outros deuses, não aceita ser adorado por meio imagens, não admite o uso impróprio de seu santo nome, e ainda requer um dia na semana para culto o congregacional de seus adoradores (Êxodo 20.1-11); e, além disso, não aceita o culto de desebedientes ao pais, dos violentos adúlteros etc (Êxodo 20.12-17).

Os Dez Mandamentos constituem uma regra simples e objetiva sobre “como servir e adorar a Deus”, não é correto, nem proveitoso considerar idolatria somente a quebra dos dois primeiros mandamentos. A quebra persistente de qualquer um Dez Mandamentos é idolatria, porque é falta quanto ao modo de servir e adorar a Deus, é oferecer (trazer de volta ou perante) Deus, o Criador, Provedor e Redentor do seu povo, o que ele despreza ou odeia.

Nossa adoração a Deus começa com o quatro primeiros mandamentos e se consuma nos outros seis; é por causa desta unidade entre os Dez Mandamentos que a Palavra de Deus nos adverte:

“... Tem, porventura, o Senhor tanto prazer em holocaustos e sacrifícios quanto em que se obedeça a sua palavra? Eis que o obedecer é melhor que sacrificar...” (1 Samuel 15.22-23)

“Ouvi a palavra do Senhor, vós príncipes de Sodoma... não posso suportar iniquidade associada ao ajuntamento solene...” (Isaías 1.10-17)

“Se, pois, ao trazeres a tua oferta ao altar, ali te lembrares que teu irmão tem alguma contra ti, deixa perante o altar a tua oferta, vai primeiro reconcilar-te com teu irmão; e, então, voltando, faze a tua oferta” (Mateus 5.23-24)

“Rogo-vós, pois irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis os vossos corpos por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culta reacional. E, não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus. (Romanos 12.1-2).

Embora Jeremias condenasse o culto a ídolos em Judá, especialmente o culto a Baal, não era somente esta forma direta e declarada de idolatria que o profeta combatia; ele também denunciava o furto, o homicídio, o juramento falso e o adultério (Jeremias 7.9-10) como formas indiretas e disfarçadas de idolatria; pois assim fazendo, ignorando a vontade e a Lei de Deus na prática diária, cultuavam a Baal (com ou sem a menção de seu nome), e praticavam ou “ofereciam” perante Deus o que Ele detesta ou abomina, com ódio consumidor.

O segredo do poder sedutor do pecado está no fato de ser sempre uma idolatria, uma prática em que há dois lados interessados: o ídolo (falso deus) que deseja receber, atrair para si, o serviço e culto que pertencem somente a Deus, e o pecador que deseja cultuar, oferecer o que agrada ao seu ídolo.

Em geral protestantes ou evangélicos sente-se “vacinados” contra idolatria; contudo, o apóstolo João escreveu aos crentes, seus leitores: “Filhinhos, guardai-vos dos ídolos” (1 João 5.21). A idolatria não é uma condição da qual os crentes já estejam absolutamente livres, mas um aspecto comum a todo pecado, contra o qual precisamos lutar.

Como um ídolo (falso deus) pode ser tão destrutivo e maligno? A idolatria é muito flexível, e se adapta a qualquer pecador, e a qualquer fase de um pecador. Ela pode assumir a forma mais cruel, de modo a levar o pecador a matar seu “concorrente” (Gênesis 4.8), e até mesmo a sacrificar o próprio filho (Jeremias 7.31). A idolatria pode assumir a forma da riqueza (Colossenses 3.5), ou até mesmo da piedade religiosa (Mateus 6.1-4). E, o ídolo pode até ter a aparência de uma fera, mas pode também ter o rosto e postura de um homem influente, ou a face e o corpo e uma atraente mulher; entretanto, um ídolo é sempre um falso deus, na verdade um disfarce do falso deus, e este é, enfim, o “deus deste século” (2 Coríntios 4.4), Satanás, sempre em busca do culto devido somente a Deus (Mateus 4.1-11).

A idolatria é grave, seus praticantes jamais herdarão o reino de Deus (1 Corítios 6.9-10; Efésios 5.5; Apocalipse 21.8; 22.15). Entretanto, “o sangue de Cristo nos purifica de todo pecado” (1 Corítios 6.9-10; 1 João 1.5-9).

Além do poder sedutor do pecado, que prevalece da mútua atração entre o ídolo e o pecador, outro poder contribui definitivamente para a apostasia de um indivíduo, igreja ou nação, o estímulo da falsa profecia, que por sua vez, também está ligada à idolatria:

“Os sacerdotes não disseram: onde está o Senhor? E os que tratavam da lei não me conheceram, os pastores prevaricaram contra mim, os profetas profetizam por Baal...” (Jeremias 2.8)

Embora profecia, pregação e ensino, não signifiquem exatamente a mesma coisa, têm algo muito significativo em comum: são meios de comunicação da Palavra de Deus; portanto, à falsa profecia juntam-se também a falsa ou pretensa pregação ou ensino da Palavra de Deus.

O grande obstáculo de Jeremias eram os falsos profetas (pregadores e mestres) e todos os que os apoiavam e acolhiam as suas palavras. Por isso, Deus fez de Jeremias um profeta particularmente “duro”, no melhor sentido da expressão, tanto em sua palavra quanto em seu caráter (Jeremias 1.18-19).  

A falsa profecia é um poderoso instrumento para promover apostasia e idolatria, ela realmente faz o que o seu adjetivo indica, ela engana:

“... tanto o profeta como o sacerdote usam de falsidade. Curam superficialmente a ferida do meu povo, dizendo: Paz, paz; quando não há paz.” (Jeremias 6.13-14)

A falsa profecia toca (agrada, sensibiliza) o coração pecador; e ao fazê-lo, na verdade ela fortalece (endurece) o coração do ouvinte contra a Palavra de Deus. A falsa profecia dá impressão de que Deus está falando e de que nós estamos ouvindo-o. A falsa profecia insiste em que vêm da parte do Senhor; embora ela se choque com o que Deus realmente falou, e já “está escrito”.

A falsa profecia aponta para nosso sucesso, prosperidade e satisfação pessoal (já realizados ou ainda desejados), dando-nos a impressão de que não estamos no curso uma apostasia. A falsa profecia próspera entre os que são seduzidos e enganados pelo pecado.

De modo diferente da pregação do profeta Jeremias, a falsa profecia não provoca a pergunta: “qual é o nosso pecado?” Ao contrário, ela reforça a ideia de que Deus não pode ser tão severo, ou de que nossos pecados sejam tão graves. Em termos práticos, a falsa pregação ignora ou minimiza a importância da Lei de Deus, e o valor do “sangue do Cordeiro”, o altíssimo preço do nosso perdão redenção e reconsiliação com Deus.

Assim como Israel e Judá que foram salvos para serem “povo de propriedade exclusiva de Deus... reino de sacerdotes e nação santa” (Êxodo 19.5-6), e como tais, também tipo da eterna e universal Igreja de Deus, fundada em Jesus Cristo (1Pedro 2.1-10), em todo o tempo, o povo de Deus é chamado a lutar incansavelmente contra o pecado e  a falsa pregação; pois o pecado nos atrai, e a falsa profecia nos empurra para apostasia, o abandono da Aliança com Deus.

É impossível resistir quando a força sedutora do pecado nos atrai e o poder da pregação infiel nos empurra para descida íngrime da apostasia. A descida da apostasia (individual ou congregacional) é íngrime, é difícil não descer, e quase impossível subir de volta.

Alguém regenerado, nascido do Espírito, está inseparavelmente unido a Deus, não volta atrás, não perde a salvação; porém não podemos aplicar ou transferir isto para uma Igreja, nação ou família. Igrejas, nações e famílias podem, e de fato, têm se apostatado, apartado de Deus. Além disso, o conhecimento puramente teórico (mesmo que seja preciso) da doutrina da salvação não resiste à convicção do pecado (1 João 1.5-2.6). Afinal, “... todo aquele que é nacido de Deus não vive na prática do pecado... (1 João 3.7-10).

A Igreja contemporânea, de modo geral, experimenta um momento muito parecido com a igreja de Judá, nos dias do profeta Jeremias. Como nos dias de Jeremias, há intensa atividade religiosa, inclusive confusão; entretanto, formalmente, há entre muitas nações uma Igreja que professa a fé em Jesus Cristo.

Porém, à semelhança da igreja em Judá, próximo ao momento em que veio o repentino juízo de Deus que entregou Judá nas mãos do Império Bablilônico,  há na Igreja hoje, especialmente no ocidente (e o Brasil não é exceção) um crescente desprezo à Lei de Deus e ao “precioso sangue de Jesus Cristo”. Tal desprezo se manifesta, parte, no estilo de vida dos crentes que é incompatível com a Lei do amor a Deus e ao próximo, e com o preço da redenção. O culto vai perdendo sua principal característica de reunião em que Deus fala e os crentes respondem com oração e obediência, para ganhar a formas de entretenimento. Desonestidade, violência e imoralidade sexual se multiplicam. Divórcios acontecem na igreja, sem tristeza ou arrependimento; e recasamentos são celebrados, como se fosse o primeiro, que jamais poderia ser desfeito, senão pela morte de um dos cônjuges (Mateus 19.4-6).

O crescente desprezo à Lei de Deus e ao “precioso sangue de Jesus Cristo” também se manifesta na generalizada preocupação com o crescimento da igreja. Com este objetivo, a pregação (fora e dentro da igreja) ignora a presença e gravidade do pecado e na ausência de disciplina. Como uma árvore, a igreja quer ser grande, não faz limpeza, poda. O resultado de tal atitude é que se tornará como uma “figueira sem fruto”, sujeita à condenação e juízo ( Mateus 21.18-19). Uma igreja somente cresce saudável e é mantida frutífera mediante a limpeza (poda) da fiel pregação da Palavra de Deus e exercício da disciplina cristã.


Qual é o nosso pecado? Infidelidade a Deus, desprezo à Aliança e ao relacionamento com Deus, apostasia e idolatria, causados pela sedução do pecado e falta de exposição à fiel pregação da Palavra de Deus. Qual a única atitude que pode nos livrar (a nós e nossas próximas gerações) da apostasia e seu pertinente juízo? Arrependimento, volta imediata a Deus. Precisamos urgentemente voltar a ouvir somente a Palavra de Deus (rejeitar os falsos profetas e suas palavras lisonjeiras e aduladoras), renunciar e entrar em luta contra o pecado, confiando no sangue de Cristo Jesus, derramado na cruz por causa dos nossos pecados, e no poder do Espírito Santo, também derramado sobre nós, para nossa santificação.

Thursday, 18 May 2017

A Hora do Brasil

Como acontece em estados, cidades, favelas e até em presídios no Brasil, onde criminosos estão em guerra; também alguns dos mais poderosos empresários e vários políticos brasileiros, unidos pelo assalto aos cofres públicos, estão em guerra, "atirando" uns contra os outros. Foi a ação eficaz de delegados, procuradores públicos e juízes (especialmente um) contra esta criminalidade rampante que deflagrou esta guerra.

Além de atirarem uns contra os outros, outra tática destas "facções" e indivíduos envolvidos no crime do "colarinho branco" é incitar a opinião pública e suas "armas" contra os agentes da justiça. Eles contam com a desinformação ou com a má informação do povo, e com a ingenuidade e paixão idolátrica de não poucos.

O presente momento requer prudência, sobriedade e responsabilidade. Que nossas palavras e ações sirvam como encorajamento aos que, mesmo imperfeitamente, não maliciosamente (pois como dizem, "errar é humano") buscam e promovem a justiça, ao invés de fortalecer os que intencional e conscientemente promovem a injustiça.

Que, neste crítico contexto, não apoiemos aqueles políticos que estratégica e momentaneamente aparentam ou prometem atenção a um particular interesse nosso. Que não acolhamos a falsa ideia de que, para salvar a economia, devemos dar uma chance para os corruptos.

Que além de palavras e atitudes sábias, oremos a Deus, pedindo que a justiça triunfe, e a misericórdia seja abundante, que os criminosos (independentemente da cara, cor, partido ou religião) sejam encarcerados, e os pobres e doentes sejam socorridos.

Que grande oportunidade para cada brasileiro considerar que somente é "feliz a nação cujo Deus é o Senhor..."! (Salmos 33.12)